sábado, 11 de fevereiro de 2012

O escritor e a psicóloga.





Depois de muito tempo, ele finalmente se rendeu e ligou as pressas marcando uma consulta com uma das psicólogas mais citadas da cidade. Não era nada muito grave, talvez, mas aquela vírgula tinha virado o pesadelo e o monstro da vida dele.
Chegou muito cedo ao consultório, a simpática secretária disse que a doutora só iria chegar cerca de duas horas depois.
- Você pode ir tomar café ou dar uma volta, moço.
- NÃO! prefiro ficar aqui, mas posso lhe fazer uma pergunta?
- Claro.
- O que significa uma vírgula pra ti?
- Como assim? - Bianca, a simpática secretária, respondeu um tanto surpresa. Olha que ela já tinha escutado muitas coisas nesses 3 anos que trabalhava com a Doutora Marianne, mas nunca sobre o significado de uma vírgula.
- Você deve estar achando que sou louco e que deveria mesmo era estar no consultório de um psiquiatra. É que eu meio que sou um projeto de escritor e tenho certeza que agora estou escrevendo a minha melhor obra, mas essa vírgula está me matando.
- Seu... Seu... Desculpe-me, como é o nome do senhor mesmo?
- Gustavo
- Então, Gustavo, não sou a pessoa mais indicada pra responder isso, mas se é a sua melhor obra, porque se preocupa tanto com uma simples vírgula?
- Veja bem, o meu livro precisa estar perfeito, mesmo antes de chegar nas mãos dos revisores e editores. EU PRECISO.
- Respondendo a sua pergunta, acho que a vírgula significa a respiração da frase.
- É, obrigado pela resposta. Melhor eu ficar esperando em silêncio mesmo.
Gustavo estava muito ansioso, preocupado de forma terrível com a vírgula, com a frase, com o livro todo. Ao mesmo tempo ainda tinha imaginação o suficiente para formar pelo menos umas 4 histórias naquele prazo de duas horas de espera agoniante.
- Seu Gustavo - Bianca com um sorriso encantador interrompe um dos melhores pensamentos dele - Marianne disse que já está chegando.
- Ah, que bom.
Agora o prazo era de menos de uma hora, mas os segundos começaram a se transformar em horas e ele já tinha sensação de que estava há uns 30 anos naquela sala de espera e com a sua preocupação demasiada com a vírgula.
Quando  Marianne entrou no consultório, Bianca deu um forte suspiro de alívio e Gustavo entrou em um momento rápido de pânico.
- Vamos, Gustavo? - Doutora Marianne finalmente abrira a porta e o chamava para a possível solução do dilema.
-Doutora Marinne, eu sei que você vai achar a maior besteira do mundo e que eu sou estúpido, mas isso já está me deixando louco.
- Primeiro, Gustavo, você pode me chamar de Marianne. E outra, eu já atendi pacientes com tantas manias e dilemas. Estou aqui para ajudá-lo e não para dizer que você é estúpido e que estou perdendo o meu tempo. Qual é o problema?
- Eu fico até envergonhado de falar, mas o problema. O problema é a Vírgula, Marianne. Ela está tomando conta de mim de uma forma.
- O que seria a vírgula? - Apesar de todos os pacientes, ela ficou espantada com o motivo da perturbação, mas disfarçou bem.
- Há muito tempo eu venho tentando escrever um livro bom, sabe
? Não que os outros não sejam e tudo, mas eles nunca chamam atenção. Agora eu tenho certeza que esse vai pra frente, mas tem que ficar perfeito e essa maldita vírgula está estragando tudo.
- Por que está estragando, Gustavo?
- Porque se eu a coloco na frase, é como se eu estivesse cortando-a ao meio. Se eu não coloco é como se ela estivesse perdida no meio da minha criação, da pra entender?
- Sim, mas quero que você me explique como surgiu esse dilema que está deixando você assim.
- Quando eu comecei a escrever esse livro, já estava quase desistindo de ser escritor, andei até pensando em outras faculdades. Mas aí veio essa ideia, esses personagens e eu passei a fazer parte do livro. Aí, apareceu essa vírgula maldita, que teima em querer me provocar e machucar. A senhora alguma vez já ficou abatida por uma coisa tão besta?
Aquela pergunta foi como um soco na cara para Marianne. Apesar de ela ser a psicóloga mais citada da cidade e praticamente fazer milagres com os pacientes, a vida dela não era lá aquelas coisas. Gustavo soube como atingi-la mesmo sem intenção.
- Gustavo, você tem que ver aonde quer chegar com esse livro. Você tem que perceber que essa vírgula pode ser o clímax da história do escritor e a sua criação. Não pode deixar que ela tome conta de um trabalho tão bem feito como você diz que é.
- Eu sei, doutora. Mas é que não dá pra continuar sem antes resolver isso. Acredita que eu já até tentei conversar com a vírgula?
- Conte-me como foi.
- Eu estava sentado, tentando escrever a continuação e não ligar muito para isso, mas fiquei pensando, pensando e pensando. Resolvi parar e comecei a falar: Por que você fica aí só me provocando? Por que você me impede de ir adiante e escrever algo bom? Por que você é tão cínica?
- E o que aconteceu, Gustavo?
- Ela continuou parada, me encarando, me desafiando e mostrando que eu tinha perdido a batalha, por isso estou aqui.
Marianne começou a lembrar da infância, de quando tinha dificuldade para escrever as redações da escola e sempre era pressionada pelos pais, que eram ótimos escritores. Lembrou-se até que uma vez passou uma semana de castigo porque não tinha aprendido a pontuar um texto. A usar uma vírgula. Gustavo estava tão obcecado pelo seu problema, que nem percebeu a grande psicóloga estava completamente desconcertada e até mesmo mais confusa que ele. Depois de um tempo, Gustavo deixou a importância de lado e notou algumas lágrimas vindo de quem deveria ajudá-lo.
- Algum problema, Marianne? - Gustavo perguntou com um pouco de medo.
- Nenhum, Gustavo, é apenas uma alergia. - Marianne tentou disfarçar ao máximo, mas as lembranças tomaram conta dela e era difícil manter a postura.
Gustavo levantou, foi até a recepção e pegou um copo com água para ela. Ficou alguns minutos esperando que ela se acalmasse.
- Foi alguma coisa que eu disse? Por favor, fale para mim.
- Se eu te disser, Gustavo, que eu já fiquei de castigo e muito repreendida por causa de vírgulas?
- COMO ASSIM? - Ele respondeu completamente assustado.
- Meus pais eram escritores e adoravam um português certo e de acordo com todas as regras. Eu nunca fui muito boa com letras. Na época de escola, eu tinha muita dificuldade para fazer as redações e eles sentiam-se ofendidos com isso. Diziam que eu fazia de propósito, que eu não tinha vocação para nada, já que nem se quer sabia escrever direito, o que era fácil. Fácil pra eles, é claro.
- Então você realmente sabe como eu me sinto?
- Sim, talvez não com a mesma intensidade, mas sei.
- Por favor, continue a história. Acho que não vou me importar de ser um pouco psicólogo agora.
- Bem, nós invertemos totalmente a polaridade agora, não é? - Em meio a tantas lágrimas, um sorriso tímido e inseguro surgiu no resto de Marianne.
- Eu sempre quis mesmo ter a sensação de ser o 'conselheiro' de alguém. Ainda mais se for de alguém como você. Acho que estou forçando um pouco a barra, não,é? Mas tá, vamos dizer que no caso, eu vou apenas escutar e escutar.
Marianne chamou Bianca e disse para remarcar os outros pacientes, provalmente essa consulta ia demorar bastante, e ela precisava disso.
- Meus pais sempre quiseram que eu me tornasse escritora também. Lembro-me que desde pequena, eles liam e faziam que eu escrevesse bastante. Tanto que na escola, eu sempre estava a frente das outras crianças em relação a isso. Mas eu nunca tive criatividade o suficiente, nunca soube me expressar. Cada vez que os professores passavam redações e principalmente quando eram concursos, meus pais quase ficavam loucos, diziam " Você tem que se esforçar, só vive pra isso. Será que é tão difícil sentar e escrever alguma coisa? Pelo amor de Deus". O pior é que eu não tinha o apoio de nenhum dos dois. Ambos eram rígidos. Aí de mim se falasse alguma coisa errada, mesmo que de brincadeira lá em casa. Sofri muito por causa disso.
Depois que terminei o colégio, eles já vinham se preparando para conseguir contatos com editoras, livrarias e pronto, de um jeito ou de outro, eu seria A escritora, como os dois eram. Aí eu cheguei em casa e disse que tinha passado em Psicologia. Meu pai quase enfartou, minha mãe começou a gritar comigo, a chorar e dizer que aquele era o maior desgosto da vida dela. Foi uma época tensa, logo arranjei um emprego como funcionária em uma livraria e consegui alugar um apartamento. Estudei mais para mostrar pra eles que podia ser boa em alguma coisa, mas mesmo com todo esse reconhecimento, eles nem me citam mais como filha direito.
Gustavo não estava acreditando no que estava ouvindo. Pensou que tinha chegado ali com o maior problema do mundo e quando começou a escutar a história da sua médica, logo viu que aquela vírgula desprezível nem era tão importante assim. Pior, nunca ia imaginar que uma mulher tão inteligente, tão competente ia ter uma vida tão desgraçada assim.
- Olha, Marianne, eu realmente não sei o que falar. Lá em casa todos sempre quiseram que eu fosse alguma coisa que preste, inclusive um médico ou advogado. Mas eu disse que não e que ia ser escritor. Apesar dos contras, ainda falam comigo. Nnunca pensei mesmo que logo você ia ter algo tão duro assim na vida.
Marianne nunca tinha feito isso antes, mas levantou e deu um abraço apertado em Gustavo, disse que ele estava curado, ou que possívelmente não ia enloquecer por causa de uma vírgula.
- Aliás, Gustavo, qual é a frase?
- Sabe que eu esqueci?

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