sábado, 22 de fevereiro de 2014

Ensaio de separação




Ele. Ela. Uma mesa. Três cadeiras. Ela já estava lá há cerca de cinco minutos. Ele chegou molhado, cansado e só fez jogar sua bolsa de couro desbotado na cadeira que estava sobrando. Silêncio. Um suspiro prolongado. Nem dela e nem dele. Um suspiro do garçom. Não houve um diálogo. Ele apenas apontou para o cardápio o que queria, ela idem e pouco tempo depois o garçom veio com uma água, para ele e mais um café, para ela. Não houve uma troca de palavras. Ficaram se olhando por longos e intermináveis minutos. Eles sabiam o que tinha acontecido e o garçom, bom, esperto do jeito que é, captou tudo e ficou apenas observando, como alguém que espera o clímax de um filme. Ele chorou. Ela, não. Ele tirou um papel  amassado e molhado do bolso e entregou a ela. Ela pegou, leu, sorriu e chorou. O garçom ficou confuso, aflito. Ninguém disse nada. Ela levantou. Ele, não. Ela foi embora. Ele, não.  Ele acenou pro garçom, que apenas entregou a conta, pegou o dinheiro e foi embora. Ele permaneceu sentado. Incrédulo. Ele. Uma mesa e três cadeiras. Uma preenchida com a sua bolsa cheia de rascunhos sobre ela e a outra, apenas como lembrança de que um dia ela realmente existiu.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Desapontar-te





Existe a ansiedade de não querer desapontar ninguém, e aí você se esforça, fica pelo avesso, corre, pula, se esconde ou escancara de vez, como forma de ser aprovado ou devidamente apreciado.
Quando finalmente senta em um cantinho, abaixa a cabeça e pensa um pouco, percebe que a uma das ironias da vida é que somos pessoas e não lápis e que ao contrário desse desapontar tão temido, você não pode simplesmente se transformar em um apontador e se moldar ou apontar o outro de forma perfeita, pronto para fazer um rabisco impactante ou uma poesia hermética. Ao contrário, você enxerga que uma das maiores belezas da vida está naquele bilhete feito em um guardanapo amassado, sujo e cheio da nossa essência que temos medo de externalizar e correr o risco de ser desaprovado. Por essas e outras, prefiro usar caneta pra tudo.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Ser ou não ser?









É importante ser do jeito que se é. Forçar uma pseudoperfeição, além de dar trabalho e ser chato, mata a essência, o que realmente é bom, o que chega a ser ironicamente engraçado. 
Entendi que as pessoas mais felizes não tem as melhores coisas e nem precisam delas. Normalmente, as pessoas mais felizes são tão imperfeitas que isso faz com que elas sejam lindas. 
O ser verdadeiro é tão impuro e tão inocente, que ao tentar molda-lo para se encaixar nessa utopia que chamamos de mundo, acaba esgotando as melhores oportunidades de sentir o que é realmente ser: sem vergonha, sem medo de cair, sem receio de andar com chinelos trocados, sem se preocupar em sentar em uma calçada ou sarjeta e passar horas conversando sobre todos os assuntos possíveis.