sexta-feira, 26 de julho de 2013

Sobre livros de autoajuda

Livro de autoajuda. Psicólogo pra quê? Amigo pra quê? Alguém pra quê? Você saca um livro que diz tudo o que você precisava para curar aquela agonia, aquela tristeza, aquela mania.
Cada crise, um livro diferente, até que seu quarto todo está tomado de títulos como "Dê um basta na ansiedade" e "Xô, depressão". Depois disso, passa a conversar com as pessoas como se fosse a pessoa mais sadia e mais resolvida do mundo. Vira o dono dos conselhos, o amigo que apaga fogo, troca as peças com defeito dos outros. Você vai para casa com sensação de dever cumprido. Abre a porta, acende a luz e percebe que está sozinho. Não tem um cachorro para latir pra você. Não tem um gato para fazer carinho. Nem mesmo um peixe para ficar te olhando sem piscar. Aí, você senta, olha para os lados e saca um livro de autoajuda, a fim de esquecer a realidade triste daquele lugar. Começa a ler e passa horas a fio naquelas palavras do tipo "Confie em si mesmo e aí saberá como viver melhor e como fazer bem para as pessoas que estão ao seu redor". Nada mais do que a verdade. Nada mais do que as coisas como deveriam ser. Você chora e se dá conta de que não confia tanto assim em si mesmo. Ajuda tanto os outros e quase nunca é ajudado porque parece que nunca precisa de ajuda. Agora está chorando baixinho e não se permite ligar para ninguém, porque afinal, você é o porto seguro, a muralha e pessoas assim, meu bem, não podem balançar.
Como de costume, pega outro livro e começa a ler pseudofrases motivacionais. Nada mais que um conjunto de palavras que fazem você esquecer o motivo de estar chorando. Nada melhor do que ler alguém que te entende. A diferença é que a pessoa que escreveu provavelmente está em uma roda de amigos ou abraçando seus filhos. A diferença é que a pessoa que escreveu provavelmente já se libertou e admitiu fraquezas. Aliás, lá pelo meio desses livros, tem sempre um desabafo, sempre uma frase espremida, escondida, onde o escrito assume ter precisado de uma mãozinha.
Faz um favor! Larga esse livro. Larga essa autopiedade. Saca o telefone e liga pra alguém. Saca o telefone e convida alguém para tomar um sorvete. Arruma a casa e chama alguns amigos para jantar, conversar, fofocar! Faz alguma coisa, mas por favor, para de comprar livros de autoajuda.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Devaneio de um futuro bom

Parece que estou entrando em estado de graça. Estou sozinha, no escuro, mas consigo ver perfeitamente você passando pela sala. Sinto, de forma tão intensa, o seu perfume, como se você tivesse acabado de sair do banho. Não sei direito o que é isso. Parece um misto de saudade com um ar de desejo de te ter aqui logo. Deito na cama. Olho para o lado e imagino você ao meu lado, segurando a minha mão e falando coisas bobas, como se não houvesse um amanhã, uma hora para levantar e encarar essa vida. Caio levemente no sono e acordo ouvindo sua voz. Que coisa estranha! Olho para o telefone, mas não estamos na ligação. A verdade é que eu fico vendo você dançando, cantando e me falando coisas sem nexo e percebo que não tem nexo porque não presto atenção. Acontece que eu,no meu estado limite de último romance, quero que você fique aqui. Eu, que não sou de distribuir afetos, quero segurar sua mão hoje, amanhã e para sempre. Eu, que não sei olhar nos olhos, quero me perder nos seus, da mesma forma que me perdi da primeira vez que soltei um "eu te amo", sem querer. Estou vivendo nessa simbiose perigosa que é a gente. Estou vivendo essa essência entre passado e presente. Ao mesmo tempo que lembro de você, eu projeto você. Eu realmente sinto você tocando seu nariz gelado no meu rosto. Realmente vejo você levantando, em pleno domingo, com o cabelo bagunçado e esperando que eu fale alguma coisa. Qualquer coisa. Nem que seja uma irônia matinal, daquelas que ninguém ri e nem chora. Quero te dar apoio, da mesma forma que quero fazer você balançar, para correr e se apoiar em mim de novo. Quero, entender, por fim, porque vejo todas essas coisas, de forma tão clara, mesmo estando no escuro.