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Insônia feliz

Oscilando de um bocejo a outro, vinha o cansaço por trás dos olhos caídos, olheiras que se penduravam nas horas que não foram dormidas e nem cochiladas.
Enquanto a maioria dorme, quem vive a madrugada encolhido na cama, esparramado entre travesseiros, música, livros ou pensamentos, ganha cerca de mais oito horas para ser quem bem entende. Nessas horas que se arrastam, o silêncio permite ouvir até a respiração nervosa que é saber que no outro dia deverá estar esperto e produtivo, sem queixas, sem se encostar em um canto ou em alguém e dar aquela sonhada rápida, de quem valoriza até aqueles cinco minutos pós almoço que todo mundo gostaria de ter.
O que fazer em uma ou várias noites de insônia? De fato, é possível descobrir, por exemplo, que dentro do quarto existe um relógio que funciona. De fato, você para de arrumar desculpas e começar a por em dia a leitura que vem se arrastando e crescendo a cada semana. Se não isso, resolve até estudar para aquela prova ou aquele seminário que seri…

E esse tal de amor?

Olha, eu não sou de ficar puxando assunto com ninguém, mas gostaria de saber como anda sua vida. Seus olhos estão meio inchados, gostaria de saber se andou chorando e o motivo, sabe? Não que eu vá conseguir te ajudar. Não que eu vá resolver seus problemas, só que às vezes é bom falar. Às vezes é bom perder a postura de feliz e admitir que nem tudo está bem.
Não vou te analisar, até porque ainda nem aprendi a fazer isso direito. Só quero mesmo saber se esse olhar vazio é de tristeza ou de pura distração. Você nem se quer tomou o refrigerante. Nesse tempo que estamos aqui, o gelo já derreteu e o gosto deve ta péssimo. Voltando ao assunto, eu não sou de me meter na vida de ninguém e muito menos faço do tipo que diz que entende, só que não ta entendendo nada. Se eu entender, vou falar. Se eu não entender, vou pedir desculpas e perceber que teria sido melhor não ter tocando no assunto.
Também não gosto de tocar em assuntos. Prefiro que eles venham até mim, mas nesse caso, preciso cutucar por…

Contramão

De quantos pedaços será que somos feitos? Quantos pedaços você acha que eu tenho, para todo o dia vir querendo levar mais um: Eu te amo não diz tudo. Eu não sei nem até que ponto algum "Eu te amo" diz alguma coisa.
Esperei anos por essas palavras, por essa sua cara estranhamente linda de choro, pelas suas mão procurando a minha, por você. Hoje, não espero nada. Hoje, apesar de ainda achar a sua cara de choro estranhamente linda, isso não me comove mais. Não me comove mais o seu cabelo levemente bagunçado. Não me comove mais esse olhar apertado, como se sempre estivesse querendo ver além do que está a sua frente. Não me comove mais os seus abraços perfeitos, as suas mãos geladas e nem o toque da sua pele. Não me comove mais esse sorriso intrigante, as frases impactantes e nem as lembranças de uma época feliz.
Eu te amo não diz tudo e por isso eu parei de dizer. Eu te amo e para não ter que falar, a maior prova de amor que posso me dar agora é te deixar.

Clarice

Algo estava consumindo Clarice. Depois de todo esse tempo, agora acorda frequentemente com uma vontade intensa de apenas ir, correr pelas ruas como aqueles panfletos que pegamos, ignoramos e simplesmente jogamos no ar para a sua própria sorte.

Olhou seu reflexo por horas e não se reconheceu. Os olhos cansados, as olheiras lembrando as noites mal dormidas, todas essas coisas que todo mundo passa, mas ninguém admite e insiste em julgar. Havia dormido mais de oito horas seguidas, o que era um recorde para alguém como ela, mas nunca havia acordado tão cansada, tão indisposta a fazer as mesmas coisas que a colocaram naquela posição. Pensou em escrever, mas não conseguiu. Pensou em muitas coisas, mas permaneceu na cama. Ligou a tv e não quis acreditar. Lá estava ela, sozinha, cansada, olhando para a tv, que a esmurrava com um programa sensacionalista qualquer.

Queria poder se dividir em várias e ir por aí como quem já está transbordando há tempos, em busca de si, até alcançar o estado de gr…

(Des)encontro com a lucidez

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De repente, ao abrir os olhos rapidamente e enxergar tudo ainda embaçado, como em processo de criação, começo a sentir uma clareza enorme, que me anula, me faz regredir e sentir, mais uma vez, aquele estado de ainda não-pessoa, ao estar no ventre, ainda no calor daquele lugar pequeno, tão forte e tão primitivo como é a vida.
É uma lucidez? um devaneio daqueles típicos matemáticos, onde apesar de construirmos cálculos perfeitos e enormes, o que conta mesmo é o resultado simples e objetivo? Como ser objetivo? Como ser tão óbvio? entre um piscada e outra, entre um cerrar de olhos e outro, continuo sendo.
Sinto cada parte do corpo pulsar e nem sei. Eu sou e isso vai além desse conjunto de matérias magníficas que compõe o meu corpo, palpável, sensível e frágil.
Parece que assim, em um estado de não tempo e zero hora, consigo ver claramente o vazio. Não entendo e nem precisa ser entendido. Ver o vazio é ver a si mesmo através de um infinito misterioso, e eu não me alcanço. Minha lucidez repent…

Nota sobre o não tempo

Acordo com a sensação de não saber que dia é hoje. O tempo, de fato, não existe. Tudo lá fora deve estar sendo o que. Existir e ser são coisas distintas. Nesse vazio matinal, não sou, apenas existo. Na eternidade não existe o tempo e acho que na eternidade também não deva existir a saudade dolorosa de temer a passagem do tempo e a não possibilidade de viver alguma coisa de novo. Eu um mundo paralelo, eu estaria sendo em outro lugar, em outra língua e perto de qualquer saudade rápida e contida. Escrever é a salvação de alguma coisa. Da matéria, do espírito, do estado bruto da coisa. Quando escrevo, salvo a mim mesma e quem sabe alguns que estão perto de mim. Escrevo para tentar sanar meus pensamentos. Escrevo uma alegria, uma saudade, um amor, quem sabe.  O amor nunca avisa a hora de chegar e parece também não avisar a hora de partir.  O tempo não existe, mas a materialização que fazemos dele corre, muitas vezes sem direção, e quando se tem essa limitação, a saudade se concretiza antes …

Segunda-feira

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Seria como um dia qualquer, mas era o meu dia. O dia que escolhi que sair de cama seria a melhor ideia. O dia que entendi que ficar parado é bom, mas que caminhar em direção a qualquer coisa é preciso.
Era uma manhã chuvosa e nem sabia mais como era a sensação de acordar assim. Assim, sem esse cansaço na pele, sem a cabeça reclamando mais uma segunda-feira, sem a vontade de virar de lado e esperar que as horas passassem logo, pra que qualquer coisa acontecesse e desse sentido a esse momento
Não! Por ser meu dia, não esperei muita coisa. Levantei com essas roupas aleatórias, olhei para fora e vi que a chuva havia parado. Não entendi, ainda, qual a sensação que experimentei, mas era boa. Sentei, olhei para os lados, mais dormindo do que acordada, mas havia entendido. Tudo isso não era nada além de paz de espírito, estado de graça. Quando não se tem com tanta freqüência, qualquer coisa é o suficiente pra deixar embriagado, não é?
Permaneci calada, imóvel, em transe. Parece que uma boa noite…