sábado, 5 de dezembro de 2015

(Des)encontro com a lucidez



De repente, ao abrir os olhos rapidamente e enxergar tudo ainda embaçado, como em processo de criação, começo a sentir uma clareza enorme, que me anula, me faz regredir e sentir, mais uma vez, aquele estado de ainda não-pessoa, ao estar no ventre, ainda no calor daquele lugar pequeno, tão forte e tão primitivo como é a vida.
É uma lucidez? um devaneio daqueles típicos matemáticos, onde apesar de construirmos cálculos perfeitos e enormes, o que conta mesmo é o resultado simples e objetivo? Como ser objetivo? Como ser tão óbvio? entre um piscada e outra, entre um cerrar de olhos e outro, continuo sendo.
Sinto cada parte do corpo pulsar e nem sei. Eu sou e isso vai além desse conjunto de matérias magníficas que compõe o meu corpo, palpável, sensível e frágil.
Parece que assim, em um estado de não tempo e zero hora, consigo ver claramente o vazio. Não entendo e nem precisa ser entendido. Ver o vazio é ver a si mesmo através de um infinito misterioso, e eu não me alcanço. Minha lucidez repentina pode ir desse estado de graça até o inferno humano, mas quem a guiará?
Olhar o vazio é enxergar, também, a clareza da realidade. Enxergar, em arestas tão sutis, os riscos de ir além da matéria, antimatéria, da irrealidade que criamos e nos acomodamos quase que pra sempre.
Pois bem, o que posso entender, diante desses momentos de suspensão de consciência e aproximação do que há de místico, é que consisto, insisto, sinto, grito, mas enfim, existo.  

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Nota sobre o não tempo


Acordo com a sensação de não saber que dia é hoje. O tempo, de fato, não existe. Tudo lá fora deve estar sendo o que. Existir e ser são coisas distintas. Nesse vazio matinal, não sou, apenas existo.
Na eternidade não existe o tempo e acho que na eternidade também não deva existir a saudade dolorosa de temer a passagem do tempo e a não possibilidade de viver alguma coisa de novo.
Eu um mundo paralelo, eu estaria sendo em outro lugar, em outra língua e perto de qualquer saudade rápida e contida.
Escrever é a salvação de alguma coisa. Da matéria, do espírito, do estado bruto da coisa. Quando escrevo, salvo a mim mesma e quem sabe alguns que estão perto de mim.
Escrevo para tentar sanar meus pensamentos. Escrevo uma alegria, uma saudade, um amor, quem sabe. 
O amor nunca avisa a hora de chegar e parece também não avisar a hora de partir. 
O tempo não existe, mas a materialização que fazemos dele corre, muitas vezes sem direção, e quando se tem essa limitação, a saudade se concretiza antes da partida.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Segunda-feira


Seria como um dia qualquer, mas era o meu dia. O dia que escolhi que sair de cama seria a melhor ideia. O dia que entendi que ficar parado é bom, mas que caminhar em direção a qualquer coisa é preciso.
Era uma manhã chuvosa e nem sabia mais como era a sensação de acordar assim. Assim, sem esse cansaço na pele, sem a cabeça reclamando mais uma segunda-feira, sem a vontade de virar de lado e esperar que as horas passassem logo, pra que qualquer coisa acontecesse e desse sentido a esse momento
Não! Por ser meu dia, não esperei muita coisa. Levantei com essas roupas aleatórias, olhei para fora e vi que a chuva havia parado. Não entendi, ainda, qual a sensação que experimentei, mas era boa. Sentei, olhei para os lados, mais dormindo do que acordada, mas havia entendido. Tudo isso não era nada além de paz de espírito, estado de graça. Quando não se tem com tanta freqüência, qualquer coisa é o suficiente pra deixar embriagado, não é?
Permaneci calada, imóvel, em transe. Parece que uma boa noite de sono realmente faz uma grande diferença.

domingo, 15 de março de 2015

Das vantagens do não-ser



Por que gostamos tanto de novelas, filmes, e mais dificilmente, teatro? Alguns dirão que é por causa da criatividade do roteiro, da fotografia bem trabalhada, mas quase todos afirmam que a beleza está na desenvoltura e talento de quem interpreta o personagem. Ora, pra quem gosta e acompanha, assistir a um ator ou atriz em seu mais novo trabalho é uma oportunidade de vê-lo se reinventar e, também, de ver o quanto o não-ser está presente entre nós e nem notamos.
Angelina Jolie, além de todos os atributos que um bom ser humano pode e deve ter, ao menos visto de longe, parece ter a relação entre o ser e o não-ser de forma tão simbiótica, que às vezes não sei separar o ser e não-ser presente nela. Entro na trama, através dos olhos, muito bem utilizados, da forma de expressão, da vivacidade que existe no momento em que precisa nos convencer de que não é a Jolie ali, mas a Gia, a Lisa, a Sr. Smith. É como se ela realmente fizesse uma suspensão de consciência, uma suspensão dela mesma naquele momento, na entrega quase perfeita até o momento de estado de graça.
Li rapidamente, vagando por sites aleatórios, que quem não existe não sofre, não fracassa. Entretanto, também não ama, não conquista, não é e nem pensa em ser porque não sabe o que significa. 
Quando penso no momento que um ator vive um personagem e depois o discurso por trás do trabalho, imagino que esse ser que deveria não existir, existe sim! E como existe e como aquele não-ser passa a fazer parte do ser real de quem o interpreta e como isso pode e provavelmente altera, sim, a forma de sentir e vivenciar o mundo de quem deu vida a ele.
Pensando por esse lado, pensando por todas as coisas que temos como magnífica nesse ramo, poder dar vida a um não-ser parece um exercício de autoqualquer coisa, onde você tem a oportunidade de momentaneamente ser quem quiser, experimentar vivenciar o que, de fato, não parece ser seu, tirar pequenas férias de si mesmo e ainda tocar e invadir o ser verdadeiro do outro. Do outro que assiste, do outro que embarca na vida de quem se apresenta, de quem está na tela, no palco. Presumo que interpretar é como fazer de si uma casa em movimento, onde tantos entram e saem, e no fim, fica você mesmo. Você e o seu ser, você e toda a bagagem de não-ser que um dia foi uma bagagem na sua história. 
Desconfio que o não-ser é tão importante, que sem ele o ser talvez nem se quer fosse notado ou se quer existisse.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Inerências de fragmentos da existência de um ser e a construção do amor.




Parar o tempo. A sensação de congelar a ação e todo o processo de movimentação ao redor. Parar e transitar entre os espaços vagos. Parar e poder observar olhares vagos. Os olhos ficam mais pesados, quase fechados, o corpo parece flutuar, levitar. As coisas acontecem como uma espécie de cena em câmera lenta. Ocorre um mergulho intenso até o interior genuíno, onde nada é tão essencial que a sua própria verdade, seja ela qual for. A verdade sobre uma dor, um amor, qualquer coisa.Você entra com as falas, o roteiro, o desenrolar de qualquer coisa. De si mesmo. E por costumar nos fazer esquecer razões que regem a dinâmica da vida é perigoso mas fundamental.Tanto o amor por si, quanto o amor pelo o outro. Ama-se o outro. O outro é o objeto perfeito de idealização, projeção. Tudo que queríamos em nós e projetamos no ser que pensamos amar.
Eis o ponto. A dor e o sofrimento de perder alguém, seja da forma mais extrema ou nao, é tão natural e tão comum a todos, mas a forma que nos deixamos levar por isso é subjetiva.Então, quando esse ser chega, um mundo explode de cores e energia. Quando esse ser vai, as cores se escondem e a energia parece apagar.
Nós, como seres no mundo e de tantas coisas, temos como conduzir até uma dor de quebra de laços, mesmo que nos exija muito.
Nós, como seres pensamente e sentidores de tudo, sofremos, perdemos o rumo certo quando percebemos que as emoções são como montanhas russas constantes. Entretanto, ao abrir o coração, a mente e todas as formas de recepção para o mais profundo, entende. Entende que amor de verdade também acaba ou se transforma. Entende que por mais que carregue um sentimento de amor por uma pessoa pra sempre, você vem em primeiro lugar e que isso não pode e nem vai te parar. Entende que boa parte de como nos sentimo tem mais relação ao significado e simbologia que damos às coisas do que como elas são, de fato. Finalmente, começa a entender que a felicidade, o amor ou todas as Fídias que almejamos estão bem distribuídas em nós mesmos e na nossa relação com o "eu", para depois chegar até o outro, e que quando isso é visto, as coisas mudam, você muda, a percepção fica tão intensa que você, enfim, sente e vivência o ser-no-mundo que é e sempre haverá de ser.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A questão do tempo




O tempo é e ao mesmo tempo parece não ser. Escuto com tanta freqüência "dê tempo ao tempo", "o tempo é o melhor remédio". De fato, ainda parece ser, mas não necessariamente o tempo que carregamos, fadados a horas, minutos e segundos.
O tempo aí falado está mais ligado as nossas vivências, prioridades e fluxo de pensamento. Com o passar das coisas, uma situação fica em primeiro plano, enquanto outra não,e temos a impressão de que o tempo (espaço de tempo) nos proporcionou isso. Tudo bem! Mas como explicar, quando anos depois, uma pessoa, uma lembrança é trazida à tona e tudo que esteve em torno dela, também? E você parece se sentir da mesma forma, com toda a intensidade, até que aos poucos, começa a ligar as coisas, sua evolução, talvez, e percebe que nem é tão incômodo assim, nem bagunça tanto, mas está presente. O que é o tempo? Quanto tempo é necessário para suprir algo, superar algo? Dias, meses, anos, milênios? Ou será que basta uma suspensão de consciência sobre aquele assunto? Será que enfrentando-o, questionando-o e fechando o ciclo em torno dele a gente consegue suprir e simplesmente continuar?

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Escrevia sobre amor como e para ninguém



Em algum ponto da vida, escrevia sobre o amor como ninguém. Desde pequena, naqueles pedaços de papéis rabiscados, escrevia coisas aleatórias que exalavam a beleza que via em amar alguém ou alguma coisa. Costumava amar de tudo um pouco. Animais, pessoas, cores, sons, sombras.
Sempre que lia ou achava que lia, me apaixonada pela fonte de todas as palavras impressas, pelo mistério do livro novo que parecia não ter pressa. E eu não tinha pressa. Não corria , não me preocupava. Chorava ao sentir o sentido das palavras, mas nunca por outra coisa.
Então, mais tarde, ao começar a enxergar as coisas do mundo com um ar de malícia, percebi que o amor ia além da imaginação de uma menina, além das representações poéticas dos filmes que quase sempre procuram representar a carência existencial e interna do outro.
Escrevia sobre amor como ninguém, até o dia que passei a vê-lo por outros ângulos, por entre os becos, por entre as arestas mal lapidadas que estão em todas as partes.
A partir daquele dia, passei a escrever sobre o meu amor como ninguém. Tentava escrever sobre o impossível, o que antes era fácil e nem parecia exigir esforço algum. Vi meus muros caindo. Descobri, mais tarde, com as mentiras, através de muitos silêncios e poucas palavras, que isso não me pertencia da forma que era acostumada e que o amor que antes retratava, era um sonho ingênuo de criança.
Com o passar dos anos e com as mudanças ocorridas dentro de mim, naquele ser que agora começo a conhecer, percebi o quanto estamos preocupados em sentir e viver o amor romântico, como uma espécie de droga, como uma espécie de utopia que precisa ser alcançada. 
Percebi que nos esforçamos tanto para amar o outro, que esquecemos o amor genuíno, não lembramos que amor vem de dentro pra fora e quando vem assim, o outro passa a ser amado como consequência, da melhor maneira possível, sem estresse, sem obrigatoriedade.
Sejamos de dentro pra fora. Voltemos a enxergar o sentimento com a essência que ele carrega e não com a missão imposta, de que você precisa amar e ser amado pelo outro, quase de forma doentia, para que seja feliz.
Felicidade é estado de espírito e estado de espírito é algo interno. As coisas externas complementam, estimulam, mas não determinam.
Ama o outro como a si mesmo e verá que esse sentimento é o reflexo do amor que tem pelo seu ser interno. Se vai ser bom ou não, cabe a cada um de nós. Não há livro, nem música, nem filme e nem poeta que possa responder isso por ti!

Enquanto continuo caminhando, volto a escrever sobre amor, mas de forma diferente. Depois que passei a me enxergar, escrevo sobre o amor como a mim mesmo, por mim mesmo, para depois alcançar o outro. Se essa é a maneira correta ou não, quem saberá?