domingo, 15 de março de 2015

Das vantagens do não-ser



Por que gostamos tanto de novelas, filmes, e mais dificilmente, teatro? Alguns dirão que é por causa da criatividade do roteiro, da fotografia bem trabalhada, mas quase todos afirmam que a beleza está na desenvoltura e talento de quem interpreta o personagem. Ora, pra quem gosta e acompanha, assistir a um ator ou atriz em seu mais novo trabalho é uma oportunidade de vê-lo se reinventar e, também, de ver o quanto o não-ser está presente entre nós e nem notamos.
Angelina Jolie, além de todos os atributos que um bom ser humano pode e deve ter, ao menos visto de longe, parece ter a relação entre o ser e o não-ser de forma tão simbiótica, que às vezes não sei separar o ser e não-ser presente nela. Entro na trama, através dos olhos, muito bem utilizados, da forma de expressão, da vivacidade que existe no momento em que precisa nos convencer de que não é a Jolie ali, mas a Gia, a Lisa, a Sr. Smith. É como se ela realmente fizesse uma suspensão de consciência, uma suspensão dela mesma naquele momento, na entrega quase perfeita até o momento de estado de graça.
Li rapidamente, vagando por sites aleatórios, que quem não existe não sofre, não fracassa. Entretanto, também não ama, não conquista, não é e nem pensa em ser porque não sabe o que significa. 
Quando penso no momento que um ator vive um personagem e depois o discurso por trás do trabalho, imagino que esse ser que deveria não existir, existe sim! E como existe e como aquele não-ser passa a fazer parte do ser real de quem o interpreta e como isso pode e provavelmente altera, sim, a forma de sentir e vivenciar o mundo de quem deu vida a ele.
Pensando por esse lado, pensando por todas as coisas que temos como magnífica nesse ramo, poder dar vida a um não-ser parece um exercício de autoqualquer coisa, onde você tem a oportunidade de momentaneamente ser quem quiser, experimentar vivenciar o que, de fato, não parece ser seu, tirar pequenas férias de si mesmo e ainda tocar e invadir o ser verdadeiro do outro. Do outro que assiste, do outro que embarca na vida de quem se apresenta, de quem está na tela, no palco. Presumo que interpretar é como fazer de si uma casa em movimento, onde tantos entram e saem, e no fim, fica você mesmo. Você e o seu ser, você e toda a bagagem de não-ser que um dia foi uma bagagem na sua história. 
Desconfio que o não-ser é tão importante, que sem ele o ser talvez nem se quer fosse notado ou se quer existisse.

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