segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Escrevia sobre amor como e para ninguém



Em algum ponto da vida, escrevia sobre o amor como ninguém. Desde pequena, naqueles pedaços de papéis rabiscados, escrevia coisas aleatórias que exalavam a beleza que via em amar alguém ou alguma coisa. Costumava amar de tudo um pouco. Animais, pessoas, cores, sons, sombras.
Sempre que lia ou achava que lia, me apaixonada pela fonte de todas as palavras impressas, pelo mistério do livro novo que parecia não ter pressa. E eu não tinha pressa. Não corria , não me preocupava. Chorava ao sentir o sentido das palavras, mas nunca por outra coisa.
Então, mais tarde, ao começar a enxergar as coisas do mundo com um ar de malícia, percebi que o amor ia além da imaginação de uma menina, além das representações poéticas dos filmes que quase sempre procuram representar a carência existencial e interna do outro.
Escrevia sobre amor como ninguém, até o dia que passei a vê-lo por outros ângulos, por entre os becos, por entre as arestas mal lapidadas que estão em todas as partes.
A partir daquele dia, passei a escrever sobre o meu amor como ninguém. Tentava escrever sobre o impossível, o que antes era fácil e nem parecia exigir esforço algum. Vi meus muros caindo. Descobri, mais tarde, com as mentiras, através de muitos silêncios e poucas palavras, que isso não me pertencia da forma que era acostumada e que o amor que antes retratava, era um sonho ingênuo de criança.
Com o passar dos anos e com as mudanças ocorridas dentro de mim, naquele ser que agora começo a conhecer, percebi o quanto estamos preocupados em sentir e viver o amor romântico, como uma espécie de droga, como uma espécie de utopia que precisa ser alcançada. 
Percebi que nos esforçamos tanto para amar o outro, que esquecemos o amor genuíno, não lembramos que amor vem de dentro pra fora e quando vem assim, o outro passa a ser amado como consequência, da melhor maneira possível, sem estresse, sem obrigatoriedade.
Sejamos de dentro pra fora. Voltemos a enxergar o sentimento com a essência que ele carrega e não com a missão imposta, de que você precisa amar e ser amado pelo outro, quase de forma doentia, para que seja feliz.
Felicidade é estado de espírito e estado de espírito é algo interno. As coisas externas complementam, estimulam, mas não determinam.
Ama o outro como a si mesmo e verá que esse sentimento é o reflexo do amor que tem pelo seu ser interno. Se vai ser bom ou não, cabe a cada um de nós. Não há livro, nem música, nem filme e nem poeta que possa responder isso por ti!

Enquanto continuo caminhando, volto a escrever sobre amor, mas de forma diferente. Depois que passei a me enxergar, escrevo sobre o amor como a mim mesmo, por mim mesmo, para depois alcançar o outro. Se essa é a maneira correta ou não, quem saberá?