quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Chuva, café e poesia.




Chuva lá fora, música tocando baixinho, o silêncio dentro de mim cutucando algumas feridas. Não gosto de ser tão provocada assim. Tenho vontade de jogar a minha consciência fora e ser livre de forma banal. O café está quase pronto, deixei um livro de poesias sobre a mesa. Estou preparando o meu terreno sagrado de serenidade. Gosto de ficar só nesses momentos.Gosto dessa imagem cinzenda que tem o dia chuvoso. Gosto porque os pensamentos ficam  mais livres,mais lentos e podemos sentir saudades sem chorar.Podemos ser nós mesmos, tomar um banho de chuva e ser um pouco feliz. Falando nisso, tomei banho de chuva hoje. Limpei a alma, o coração e boa parte do corpo. Só eu sei o quanto foi gratificante sentir toda essa água no meu rosto, tirando a maquiagem, tirando as impurezas. O café está pronto finalmente. Vou colocá-lo em uma xícara qualquer, para que ele não se sinta muito importante e não perca a humildade. Perder a humildade é quase suicídio. A verdade é que sou dependente de café. Tái a minha droga assumida. Acredito que não vou ser internada por isso. A varanda me espera, a música vai acabando, a chuva não está tão grossa como antes. Pegarei o livro de poesias com palavras e sentimentos tão sinceramente colocados e vou sair um pouco desse mundo que não me pertence. Até mais, pessoas estranhas.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Abandono



Não quero pensar nos teus olhos tristes, se por acaso eu for embora.
Que mau abandono seria. Tão vulgar. Tão covarde.
Dói pensar na minha expressão também. Arrependimento automático que sentiria tão intensamente.
Devo oferecer tão pouco amor. A minha solidão grita tanto que devo te machucar.
Não posso pedir compressão, se nem eu entendo a minha existência.
Acredito que tu sofras por conta dos meus devaneios, sim.
Que triste seria sair de cena mais uma vez de forma tão imprevisível. Surreal.
Não quero pensar na melancolia que seria se me despedisse agora.
Cultivamos uma simbiose quase perigosa.
Não quero nem pensar em...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Para sempre







Existem algumas coisas na vida que são para sempre. Os nossos pais são para sempre. A nossa infância é para sempre. Amores são para sempre. A diferença está nas escolhas que tomamos e o que desejamos levar para sempre. Você decide levar valores ou não. Você escolhe carregar amigos ou não. Você escolhe qual amor quer, também.
Bom, eu quis que você fosse para sempre. Eu quero que você seja para sempre e para sempre AO MEU LADO. Poderia aceitar facilmente te levar na lembrança, mas o meu corpo precisa sentir o seu. Preciso tocar seus cabelos e bagunça-los para que você fique com raiva. Preciso receber beijos nos olhos, na ponta do nariz e no rosto todo. Eu não quero ter que lembrar do dia que saímos para tomar um sorvete. Eu quero sair todos os dias para tomar sorvete. Eu não quero lembrar do dia que fomos almoçar fora. Quero poder ir COM VOCÊ almoçar fora. Quero que você seja o meu melhor passado, o meu perfeito presente o mais esperado futuro, entende?
Escolhi você por todos os motivos que alguém escolhe outra pessoa. Acima de tudo, escolhi você porque eu te amo. Quando falo que amo, é porque amo da forma mais estúpida, bonita, irritante e terna que alguém é capaz de amar.
Resolvi que faço e farei qualquer coisa para carregar você para sempre comigo.
Você vai ser o meu para sempre e isso basta.

E você, quem levará para sempre?

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Uma carta para um eu distante.

Não sei mais sobre as horas e nem sobre o dia. Sei que tenho pressa de ir para casa. Tem gente me esperando lá.
Vou te deixar na rodoviária. Não esqueça de mim. Traga-me um presente, ta bom?
O dia está bom para viajar. A chuva não está grossa demais e nem fina a ponto de ser inofensiva. O vento não está congelante e soube que dentro do ônibus servem um bom café. Siga as instruções, ta bom? Preste atenção.
- Sente-se do lado direito, perto da janela. Você encontrará uma pessoa interessante sentada a sua frente. Ela estará lendo um livro e fumando um cigarro com cheiro de canela.
- Peça um café expresso para você e para essa pessoa. Ela gosta de café forte, portanto, um duplo para ela.
- Tente puxar algum assunto. Sei lá, pergunte sobre o dia, para que lugar está indo ou se tem filhos. Use a criatividade que eu sei que tem.
- Seu relógio está quebrado, então não serão 3:15 quando você olhar para ele. Provavelmente já serão umas 5:15. Não esqueça de conserta-lo quando chegar no ponto final. Quando você descer, encontrará um senhor que sabe mexer em um relógio como ninguém. Ele vai entregar a você um lenço, também. Acho que está ficando gripado.
- Jogue a carteira de cigarro fora. Está na hora de mudar de vida.
- Corra para o apartamento. Terá música tocando, os móveis estarão arrumados e a única coisa que precisará fazer é a seguinte: ESCREVER.

Fique o tempo que precisar em frente a máquina. Troquei a tinta. Aquela estava me irritando.
Bom, como seu consciente, devo dizer que fiz tudo que podia por você. Sou do tipo que não desiste e que não quer morrer. Dependo de você agora. Use a sua experiência e piedade. Traga-me de volta, vai. Posso ajudar você a escrever e a imaginar coisas que você nem sonha. Sou mais interessante que carteiras de cigarro e energéticos baratos. Não destruirei seu corpo.

Com amor,

você.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Múltiplas personalidades(crise existencial) e uma dose de loucura.






Não sei mais quem sou. Procuro, procuro. Procuro e não encontro quem, de fato, habita em mim. Sou tantas pessoas. Tantas coisas. Sou gente, até.
Nunca soube me definir e agora entendo o por quê. Como me definir se há tantos dentro de mim?
Segunda sou calma e serena. Terça sou explosiva e irritante. Quarta choro e peço colo. Quinta sou tudo isso e um pouco mais. Sou homens, mulheres, crianças e animais. Sou um bicho não definido. Acho que passarei o resto da vida tentando descobrir. A minha sorte é que pago consulta individual e acabo levando uma diversidade de pessoas à minha psicologa. Quando recebi alta, sabia que ia ser difícil, mas achei que não precisaria voltar. Não tão cedo, ao menos. Me enganei. Meus eus precisam de controle. Os quens dentro de mim precisam entrar em harmonia.
Ando cansada e emagreci mesmo comento normalmente. Sei que tudo isso é  por conta do meu desastre mental. Ando instável de novo. Ora quero largar tudo e ir embora, ora não quero sair de casa. Não sei mais da minha sanidade. Sempre gostei da minha estranheza, mas estou com medo de enlouquecer de vez. Sinto que fracassei, mas recaídas são aceitáveis às vezes, não é?
Sou como criança que se perdeu da mãe. Falando nisso, já perdi a minha. Sou um projeto de adulto angustiado, mas não aceito muito bem. No fundo, sou completamente feliz. Talvez remédios dessem um pequeno jeito. Mais uma vez, sei e não sei o que fazer. Peço e clamo por socorro.
Controle. Controle. CONTROLE. Tudo uma questão de controle e força de vontade. Mas não é só isso. Tem a mistura inebriante e volúvel de culpa, raiva, carência, saudade, tristeza, ansiedade e desespero. É um coquetel quase mortal. Hoje sinto-me uma pocilga. Sou a verdadeira caixa de pandora.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012





Separei a minha melhor roupa. Levei horas me arrumando e quando saí, esqueci de pegar a carteira.
Agora estava bonita, limpa e sem dinheiro.
Sentei em um banco de praça e fiquei observando as pessoas. Às vezes não consigo acreditar que exista tanta gente patética, mas isso não não interessa agora.
Acontece que achei alguns trocados perto do lixeiro. Com fome, peguei o dinheiro e fui correndo comprar um cachorro-quente. Depois fiquei pensando de quem deveria ser aquele dinheiro e se ele teria uma importância muito grande. Comecei a imaginar que aqueles trocados eram o que faltava para comprar um casa, ou um remédio que poderia salvar uma vida. Imaginei que alguém, morrendo de fome, o deixou ali para chamar os seus filhos "temos dinheiro o suficiente para comer, crianças".
Comecei a ficar enjoada e com peso na consciência, mas terminei de comer o cachorro-quente e ainda pedi uma coca-cola, para acabar de vez com a esperança do verdadeiro dono do dinheiro.
Voltei para casa e não consegui dormir. Fiquei imaginando a falta que aquelas moedas fariam. Levantei na manhã seguinte e a primeira coisa que fiz foi pegar a carteira. Não me arrumei e muito menos passei perfume. Voltei ao mesmo lugar e devolvi o dinheiro, com um pouco a mais, porque não tinha trocado.
 Agora seja "o que Deus quiser".

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

 Precisamos conversar. Não aguento mais essa dúvida, essa coisa presa em mim. Gosto de você. NÃO! NÃO! não precisa se assustar. Não quero pedir e nem cobrar nada. Só quero dizer mesmo, sabe? Sou feita disso. Chega uma hora que preciso falar as coisas de uma vez.
Não precisa ficar com essa cara, vai. Não é nada grave. Podemos reverter isso (acho). Sei que as coisas vão ficar estranhas depois. Tem dias que quando olho pra você, sinto vontade de sair correndo, mas de madrugada te acho um pouco mais atraente. Sei lá, deve ser porque nessa hora ninguém vai ver além de mim, não é?
Estou tentando falar com jeito, vai. Não quero magoar ninguém. Eu PRECISO gostar de você, até porque vou te carregar em mim para o resto da vida. A gente sempre vai ter uma ligação muito forte. Você sabe disso.
Preciso dizer que tem dias que o seu rosto parece ficar torto (ou estou ficando estrábica?). Preciso dizer que você tem uma beleza própria e cheia de interrogações. Tô cansado de ficar em pé, mas nem podemos sentar. Gosto de conversando olhando nos olhos. Coisa minha.
Bom, não vou falar mais. Você está começando a bocejar e a fechar os olhos.
Amanhã limpo direito o espelho, juro. Conversar com um reflexo falhando é pau, viu!

Insônia




3:45. Nada de sono e uma dor de estômago que está para me matar. O meu copo de coca-cola sente-se desprezado e eu mal consigo pensar. Tenho vontade de fazer muitas coisas, mas mal consigo mudar de posição na cama. Ou estou doente, ou o meu corpo se rendeu ao meu estado de espírito.
Pensei em ligar para algumas pessoas, mas nem créditos tenho, sem tirar que ninguém quer ser acordado a essa hora. Crio coragem e levanto para ligar a luz. Saco um livro da minha estante. Fernanda Young. Agora está tudo completo: insônia, dor de estômago, pobreza de espírito e Fernanda Young. Sinto-me um pouco melhor.
Começo a ler. Começo a querer vomitar e xingar tudo que ela xinga. Penso"OH GOD WHY?" Irônico, não é? Também sou fútil, afinal.
Não peço para ser compreendida. Penso que o amor já está fora de moda. Penso que dizer "eu te amo" se tornou banal. Penso que carnaval só é mais uma desculpa para não fazer nada e se embriagar. Penso muitas coisas, mas como isso não vai mudar nada, mesmo, guardo tudo para mim. Sou uma crítica incubada e medrosa.
Cheiro de cigarro me deixa enjoada. Até parece que estou grávida. Pode ser. Quando sinto cheiro de cigarro parece que vou abortar a qualquer momento. Meus pulmões começam a pular e a gritar. Não tenho mais tanta paciência.
Cheiro de bebida me irrita. Sou chata, mesmo. Gosto de ler, tenho uma máquina de escrever, escuto músicas antigas, sento na varada com uma xícara de café e sou um projeto (quase) fracassado de escritora.
Estou em um estado de transe. Se não fosse por causa do cansaço, juraria que estou drogada. Sou estupidamente careta. Não tenho coragem de me drogar. Em vez disso, fico lendo, lendo e lendo. Em vez disso, escuto música durante uma hora ou mais. Meu estômago está reclamando demais. Acho que resolvi adotar uma gastrite nervosa que não me deixa mais. Ou uma gastrite psicológica?
Gosto de pontos. Sinto que posso respirar quando uso essas coisinhas insignificantes.
Agora já chega, preciso dormir ou tentar.
Tchau!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Tédio




Sem inspiração. Sem ar. Sem vida. Sem sentido. Assim são os dias vazios, inúteis, cheios de nada. São dias traiçoeiros em que nos contentamos até com a nossa tristeza. Até mesmo com migalhas. Aliás, quem nunca ficou um pouco feliz com migalhas?.
O sol tocando o seu rosto, o vento parado, você sentado na varanda de casa ou jogado na cama tentando inventar algo para se distrair. Brincar com a própria sombrar nunca foi tão divertido, não é?.
As horas vão se arrastando, você fica cada vez mais cansado de não fazer nada. Pensa em ler um livro, mas sua mente está quase adormecida. Pensa em assistir um filme, mas nenhum parece ser bom o suficiente para salvar o dia. Liga para alguns amigos, mas nenhum atende. Lembra que dentro do armário tem uma tela que você nunca terminou, então, você pega os pínceis, as tintas e até prepara o clima com o melhor cd que tem, mas para a sua decepção a inspiração não vem e você volta para aquele tormento mais uma vez. Só há uma saída: ser forte e criativo o suficiente para sobreviver as horas que ainda restam do dia.
Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Parece que nunca vai acabar, cada tic e cada tac é como um soco na cara. Você já está desfigurado, mas não admite a derrota, mesmo que isso já esteja levando você a loucura. Fazemos de tudo para sobreviver. Agora tenho certeza, e acho que você também, que brincar com a própria sombra é o passatempo perfeito e produtivo.
Uma vez disse que era muito feliz chutando uma pedra, duvidei se você acharia o mesmo. Mas agora tenho que perguntar: HOJE você seria feliz chutando uma pedra? Tenho certeza que sim. Eu pelo menos estaria no paraíso.
Em dias assim vejo que a felicidade está em coisas tão mesquinhas, mas nunca reconhecemos porque queremos muito. Queremos superar o limite. Nos surpreender sempre. Eu também quero, mas de outra forma. Do meu jeito patético, quase infantil e um pouco arrogante. Arrogância não combina comigo, mas quem nessa vida não é um pouco arrogante? Se até as crianças que são os retratos perfeitos da inocência que ainda nos resta são arrogantes, quem está livre dela? NINGUÉM; nem mesmo eu.
De repente anoitece, o sol não irrita mais, o vento começa a tocar levemente a sua face, você tem a leve ilusão de que a tortura acabou. Só que não é bem assim. Você vai deitar, desliga todas as luzes e se prepara pra dormir. O sono não vem, ninguém teve a decência de lhe dizer que hoje é dia de ficar acordado até o corpo gritar, gritar e gritar.
Você pensa novamente em ler um livro, mas qualquer coisa tira a sua concentração. Pensa novamente em assistir um filme, mas essa hora só está passando jornais e novelas. Maldito o dia que você resolveu não pagar a conta da tv a cabo. Triste, não é? Mas pense pelo lado bom, você ainda tem a própria sombra.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Um pouco de amor, por favor. (O lado bom de amar.)





Amar tem lá suas vantagens, vamos admitir. O problema é que sempre somos mais atordoados pelas dores e loucuras que o amor nos causa. Nada pior que sofrer por amor, não é? A tristeza quase infinita, as noites em claro, um copo de bebiba (como se fosse ajudar em alguma coisa), horas chorando por alguém que você odeia mas que no fundo ama ou não consegue largar. É, sofrer por amor é como levar socos e socos no estômago. Dói e nunca esquecemos o quanto é desconfortável.
Vamos ao lado bom de amar. Vamos observar como ficamos bestas e rimos até de coisas possivelmente trágicas. Você está no trabalho e faz alguma besteira. Seu chefe chega falando sério e por conta do seu estado de graça, você sente uma vontade enorme de soltar aquela gargalhada. Seria realmente cômico se ele não fosse ficar mais zangado e pensando que você estava tirando sarro dele.
Quando amamos, sentimos aquela coisa estranha, que muitos dizem ser 'borboletas no estômago'. Não sei de onde surgiu tal comparação, até porque nunca li ou escutei relato de alguém que sentiu borboletas no estômago. Um aleluia para as definições populares sobre os sintomas de amor.
Bom, quando estamos apaixonados, conseguimos até lidar de forma mais leve com situações estressantes e tristes. Não nos importamos tanto com coisas pequenas e achamos tudo bonito. Nos inspiramos para escrever cartas e mais cartas de amor. Deixamos bilhetes bobos em cima da mesa, na geladeira, dentro da agenda. Compramos presentinhos com corações, ursinhos e flores. Queremos sair todas as noites para jantar, ir ao cinema ou simplesmente passear na praia. Ficamos nervosos para que o outro dia chegue logo e aconteça o reencontro tão esperado. Esperamos com ansiedade uma ligação de uma hora ou de um minuto apenas para dizer que está com saudades ou para dar boa noite.
Estar apaixonado é viver em permanente estado de alegria, sonhos, loucura e um pouco de desespero e medo. O amor também precisa de suas inseguraças e perigo para não perder a graça. O amor precisa doer por alguns segundos para nos lembrar que devemos cuidar muito bem dele.
Depois de um tempo, você começa a ficar em um estado mais confortável e nota que está sentindo tudo de novo. Esquece das noites mal dormidas que antigos amores lhe tiraram. Percebe que sempre vai ser assim e começa a se preparar para a noite que não dormirá novamente. Ao mesmo tempo fica besta por lembrar o dia em que saiu e ganhou uma rosa. Uma tarde que foi ver o pôr do sol com o único e grande amor da sua vida (ou não). Fica anestesiado ao lembrar da primeira vez que escutou "Eu te amo" e quase desmaiou, mas se conteve para não pagar mico.
Amar tem lá muitas vantagens. Então, por favor, jogue-se desse abismo e deixe-se amortecer por sentimentos ternos e idiotas.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

O escritor e a psicóloga.





Depois de muito tempo, ele finalmente se rendeu e ligou as pressas marcando uma consulta com uma das psicólogas mais citadas da cidade. Não era nada muito grave, talvez, mas aquela vírgula tinha virado o pesadelo e o monstro da vida dele.
Chegou muito cedo ao consultório, a simpática secretária disse que a doutora só iria chegar cerca de duas horas depois.
- Você pode ir tomar café ou dar uma volta, moço.
- NÃO! prefiro ficar aqui, mas posso lhe fazer uma pergunta?
- Claro.
- O que significa uma vírgula pra ti?
- Como assim? - Bianca, a simpática secretária, respondeu um tanto surpresa. Olha que ela já tinha escutado muitas coisas nesses 3 anos que trabalhava com a Doutora Marianne, mas nunca sobre o significado de uma vírgula.
- Você deve estar achando que sou louco e que deveria mesmo era estar no consultório de um psiquiatra. É que eu meio que sou um projeto de escritor e tenho certeza que agora estou escrevendo a minha melhor obra, mas essa vírgula está me matando.
- Seu... Seu... Desculpe-me, como é o nome do senhor mesmo?
- Gustavo
- Então, Gustavo, não sou a pessoa mais indicada pra responder isso, mas se é a sua melhor obra, porque se preocupa tanto com uma simples vírgula?
- Veja bem, o meu livro precisa estar perfeito, mesmo antes de chegar nas mãos dos revisores e editores. EU PRECISO.
- Respondendo a sua pergunta, acho que a vírgula significa a respiração da frase.
- É, obrigado pela resposta. Melhor eu ficar esperando em silêncio mesmo.
Gustavo estava muito ansioso, preocupado de forma terrível com a vírgula, com a frase, com o livro todo. Ao mesmo tempo ainda tinha imaginação o suficiente para formar pelo menos umas 4 histórias naquele prazo de duas horas de espera agoniante.
- Seu Gustavo - Bianca com um sorriso encantador interrompe um dos melhores pensamentos dele - Marianne disse que já está chegando.
- Ah, que bom.
Agora o prazo era de menos de uma hora, mas os segundos começaram a se transformar em horas e ele já tinha sensação de que estava há uns 30 anos naquela sala de espera e com a sua preocupação demasiada com a vírgula.
Quando  Marianne entrou no consultório, Bianca deu um forte suspiro de alívio e Gustavo entrou em um momento rápido de pânico.
- Vamos, Gustavo? - Doutora Marianne finalmente abrira a porta e o chamava para a possível solução do dilema.
-Doutora Marinne, eu sei que você vai achar a maior besteira do mundo e que eu sou estúpido, mas isso já está me deixando louco.
- Primeiro, Gustavo, você pode me chamar de Marianne. E outra, eu já atendi pacientes com tantas manias e dilemas. Estou aqui para ajudá-lo e não para dizer que você é estúpido e que estou perdendo o meu tempo. Qual é o problema?
- Eu fico até envergonhado de falar, mas o problema. O problema é a Vírgula, Marianne. Ela está tomando conta de mim de uma forma.
- O que seria a vírgula? - Apesar de todos os pacientes, ela ficou espantada com o motivo da perturbação, mas disfarçou bem.
- Há muito tempo eu venho tentando escrever um livro bom, sabe
? Não que os outros não sejam e tudo, mas eles nunca chamam atenção. Agora eu tenho certeza que esse vai pra frente, mas tem que ficar perfeito e essa maldita vírgula está estragando tudo.
- Por que está estragando, Gustavo?
- Porque se eu a coloco na frase, é como se eu estivesse cortando-a ao meio. Se eu não coloco é como se ela estivesse perdida no meio da minha criação, da pra entender?
- Sim, mas quero que você me explique como surgiu esse dilema que está deixando você assim.
- Quando eu comecei a escrever esse livro, já estava quase desistindo de ser escritor, andei até pensando em outras faculdades. Mas aí veio essa ideia, esses personagens e eu passei a fazer parte do livro. Aí, apareceu essa vírgula maldita, que teima em querer me provocar e machucar. A senhora alguma vez já ficou abatida por uma coisa tão besta?
Aquela pergunta foi como um soco na cara para Marianne. Apesar de ela ser a psicóloga mais citada da cidade e praticamente fazer milagres com os pacientes, a vida dela não era lá aquelas coisas. Gustavo soube como atingi-la mesmo sem intenção.
- Gustavo, você tem que ver aonde quer chegar com esse livro. Você tem que perceber que essa vírgula pode ser o clímax da história do escritor e a sua criação. Não pode deixar que ela tome conta de um trabalho tão bem feito como você diz que é.
- Eu sei, doutora. Mas é que não dá pra continuar sem antes resolver isso. Acredita que eu já até tentei conversar com a vírgula?
- Conte-me como foi.
- Eu estava sentado, tentando escrever a continuação e não ligar muito para isso, mas fiquei pensando, pensando e pensando. Resolvi parar e comecei a falar: Por que você fica aí só me provocando? Por que você me impede de ir adiante e escrever algo bom? Por que você é tão cínica?
- E o que aconteceu, Gustavo?
- Ela continuou parada, me encarando, me desafiando e mostrando que eu tinha perdido a batalha, por isso estou aqui.
Marianne começou a lembrar da infância, de quando tinha dificuldade para escrever as redações da escola e sempre era pressionada pelos pais, que eram ótimos escritores. Lembrou-se até que uma vez passou uma semana de castigo porque não tinha aprendido a pontuar um texto. A usar uma vírgula. Gustavo estava tão obcecado pelo seu problema, que nem percebeu a grande psicóloga estava completamente desconcertada e até mesmo mais confusa que ele. Depois de um tempo, Gustavo deixou a importância de lado e notou algumas lágrimas vindo de quem deveria ajudá-lo.
- Algum problema, Marianne? - Gustavo perguntou com um pouco de medo.
- Nenhum, Gustavo, é apenas uma alergia. - Marianne tentou disfarçar ao máximo, mas as lembranças tomaram conta dela e era difícil manter a postura.
Gustavo levantou, foi até a recepção e pegou um copo com água para ela. Ficou alguns minutos esperando que ela se acalmasse.
- Foi alguma coisa que eu disse? Por favor, fale para mim.
- Se eu te disser, Gustavo, que eu já fiquei de castigo e muito repreendida por causa de vírgulas?
- COMO ASSIM? - Ele respondeu completamente assustado.
- Meus pais eram escritores e adoravam um português certo e de acordo com todas as regras. Eu nunca fui muito boa com letras. Na época de escola, eu tinha muita dificuldade para fazer as redações e eles sentiam-se ofendidos com isso. Diziam que eu fazia de propósito, que eu não tinha vocação para nada, já que nem se quer sabia escrever direito, o que era fácil. Fácil pra eles, é claro.
- Então você realmente sabe como eu me sinto?
- Sim, talvez não com a mesma intensidade, mas sei.
- Por favor, continue a história. Acho que não vou me importar de ser um pouco psicólogo agora.
- Bem, nós invertemos totalmente a polaridade agora, não é? - Em meio a tantas lágrimas, um sorriso tímido e inseguro surgiu no resto de Marianne.
- Eu sempre quis mesmo ter a sensação de ser o 'conselheiro' de alguém. Ainda mais se for de alguém como você. Acho que estou forçando um pouco a barra, não,é? Mas tá, vamos dizer que no caso, eu vou apenas escutar e escutar.
Marianne chamou Bianca e disse para remarcar os outros pacientes, provalmente essa consulta ia demorar bastante, e ela precisava disso.
- Meus pais sempre quiseram que eu me tornasse escritora também. Lembro-me que desde pequena, eles liam e faziam que eu escrevesse bastante. Tanto que na escola, eu sempre estava a frente das outras crianças em relação a isso. Mas eu nunca tive criatividade o suficiente, nunca soube me expressar. Cada vez que os professores passavam redações e principalmente quando eram concursos, meus pais quase ficavam loucos, diziam " Você tem que se esforçar, só vive pra isso. Será que é tão difícil sentar e escrever alguma coisa? Pelo amor de Deus". O pior é que eu não tinha o apoio de nenhum dos dois. Ambos eram rígidos. Aí de mim se falasse alguma coisa errada, mesmo que de brincadeira lá em casa. Sofri muito por causa disso.
Depois que terminei o colégio, eles já vinham se preparando para conseguir contatos com editoras, livrarias e pronto, de um jeito ou de outro, eu seria A escritora, como os dois eram. Aí eu cheguei em casa e disse que tinha passado em Psicologia. Meu pai quase enfartou, minha mãe começou a gritar comigo, a chorar e dizer que aquele era o maior desgosto da vida dela. Foi uma época tensa, logo arranjei um emprego como funcionária em uma livraria e consegui alugar um apartamento. Estudei mais para mostrar pra eles que podia ser boa em alguma coisa, mas mesmo com todo esse reconhecimento, eles nem me citam mais como filha direito.
Gustavo não estava acreditando no que estava ouvindo. Pensou que tinha chegado ali com o maior problema do mundo e quando começou a escutar a história da sua médica, logo viu que aquela vírgula desprezível nem era tão importante assim. Pior, nunca ia imaginar que uma mulher tão inteligente, tão competente ia ter uma vida tão desgraçada assim.
- Olha, Marianne, eu realmente não sei o que falar. Lá em casa todos sempre quiseram que eu fosse alguma coisa que preste, inclusive um médico ou advogado. Mas eu disse que não e que ia ser escritor. Apesar dos contras, ainda falam comigo. Nnunca pensei mesmo que logo você ia ter algo tão duro assim na vida.
Marianne nunca tinha feito isso antes, mas levantou e deu um abraço apertado em Gustavo, disse que ele estava curado, ou que possívelmente não ia enloquecer por causa de uma vírgula.
- Aliás, Gustavo, qual é a frase?
- Sabe que eu esqueci?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Eu, um livro e Clarice Lispector





Sinto-me estranhamente bem. Não sei por onde começar, também não sinto vontade de me explicar, mas sempre o faço, talvez como uma tentativa de me entender.
Caio todos os dias na mesma e maldita rotina. Normal. Sinto-me mais alegre por ter conseguido passar o dia muito bem acompanhada de um livro. De um ótimo livro, aliás.
Preciso também declarar algo sobre este livro, ou melhor, sobre a Escritora: Ainda não consegui achar escritora tão rara, única, impulsiva, triste, angustiante e ao mesmo tempo bonita, absurdamente maravilhosa, não escritora, mas sim como a própria diz 'sentidora' como Clarice Lispector. Sinto-me estranhamente feliz e feita por ter como companhia um livro seu.Mas, vamos voltar a mim. Ao meu dia.
Não é fácil tentar explicar o que penso, o que sinto, o que tento expressar da forma mais sutil e crua, através da palavra escrita, quase nunca dita.
Não sei ao certo se posso ser chamada de 'escritora', talvez seja um cargo muito alto para mim. Mas também não ao certo se posso ser chamada de 'sentidora', mesmo me identificando muito com isso. Talvez eu seja uma montanha-russa de emoções, pensamentos, sentimentos, momentos e acontecimentos. Tenho a necessidade de registrar, de vomitar da forma que me parece mais certa, mais fácil e gostosa: Escrevendo.
Estou MUITO longe de poder me comparar a qualquer nome da literatura, seja ela brasileira, estrangeira ou amadora. Também não preciso disso, não aprecio até. Mas vou confessar uma coisa e ao mesmo tempo, acabo voltando a falar não totalmente de mim, mas de mim e de Clarice: De tanto ler e tentar entrar discretamente nas suas obras, na sua escrita, na sua possível mania de ser,acabo sempre vendo rastros de sua literatura na minha pobre, iniciante e bagunçada literatura. Gosto disso. Gosto de poder me formar e trazer migalhas de alguém tão brilhante e SEU.
Confesso que vim com o objetivo de escrever no máximo quatro linhas ou menos. Mais uma vez fui tomada não só por um impulso, mas pela eloquência de tentar me explicar com detalhes, mesmo não gostando muito deles.

A ditadura da beleza.





Estamos cada mais presos a tendências e padrões de beleza. Parece que ser feio é bonito e ser bonito é brega.
Há alguns anos, era cada vez mais notável o número de esqueletos em desfiles de moda. O que leva uma pessoa a ficar em um estado de desnutrição e aparentemente frágil? Como psicóloga e escritora, procuro ler e entender todos os motivos que possam explicar tal comportamento. Só não acho justo a mídia dar tanta ênfase, a ponto de influenciar pessoas que não tem nada a ver com isso. Quer dizer que para a menina ser bonita, ela tem que pesar 30 kg, mesmo medindo 1,70 cm? Não concordo.
A ditadura da beleza já foi mais justa. Antes era muito mais apreciado o sorriso, o jeito de andar, a postura. Hoje apreciamos pessoas fabricadas. Quanto mais peitos a mulher tiver, mas valorizada será. Quando mais bunda a mulher tiver, mais será cobiçada. Ninguém mais se importa com o que a pessoa gosta de fazer, se gosta de ler ou se gosta das mesmas coisas. Torna-se cada vez mais comum casar-se com um completo estranho. O bom é ter uma companhia bonita e que desperte comentários e inveja, certo? Não. Não acho certo.
Por que deveríamos nos apaixonar pelo corpo e ignorar o caráter ou a falta dele? Ninguém é cem por cento bonito e nem cem por cento feio. Da mesma forma que ninguém é cem por cento bom ou cem por cento ruim. Temos que nos adaptar as mudanças, principalmente quando vamos ficando mais velhos. Hoje, ser velho é sinônimo de depressão e falta de saúde. Vejo pessoas com 60 anos, que desejam ter 20 e por isso se submetem a cirurgias que os transformam em verdadeiros monstros de filme de terror antigo.
O conceito de beleza tem se transformado em um verdadeiro circo de horror e quem não se encaixa nisso, acaba ficando sozinho com toda a sua inteligência, intelectualidade e valores. Uma pena.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Contar ou não?

Ainda não tive coragem de falar sobre isso. Talvez eu tenha medo de sentir tudo de novo. Acontece que ta sendo difícil ignorar essa montanha-russa de sentimentos dentro de mim. Às vezes balança tanto e faz tanto barulho, que fico enjoada.
Ainda não falei de você para ninguém. Talvez deva ser apenas uma coisa minha, mesmo. O problema é que tenho vontade de contar para o mundo, mas nem posso. O que trago no coração é para poucos. Se eu deixar que qualquer um entre, daqui a pouco estará lotado . Não contei, também, porque eu sei que as pessoas vão ficar dando palpites e falando coisas que não quero ouvir. Eu só quero poder fechar os olhos e viajar nesse paradoxo de vontade.
Quero poder pensar na casa arrumada, nos domingos acompanhados de muitos filmes, chocolate e pipoca. Poder pensar nas conversas jogadas fora e em todas as besteiras que irei falar. Gosto de pensar nas brigas e naquela vontade absurda de mandar o outro calar a boca e ir embora, mas com muitas lágrimas e voz trêmula, correr, abraçar apertadinho e pedir para ficar.
Poderíamos pensar na preguiça gostosa que é viver olhando para o céu, ficar o dia de pijama e colocar um bom cd para ouvir. Nada melhor do que boa companhia, café e chuva.
Não sei, tenho receio de querer demais de todos, sabe? Tudo deveria ser muito simples. Branco é branco, preto é preto, eu sou eu, você é você e nós somos tudo. Acontece que sempre damos um jeito de complicar. É quase engraçado quando um ai soa como uma frase de ofensa. 
Gosto de quando está frio, encostar os pés gelados em outros pés gelados e ficar esfregando a procura de um pouco de calor. Gosto de poder escrever frases soltas e depois montar um texto, como se fosse um quebra-cabeça. Gosto de você.
Esse negócio de contar ou não contar já está sendo um problema. Ninguém pode querer desmentir aquela expressão de paixão e jeito abestalhado. Vou dizer o que? Mais fácil falar, mas nem posso, porque eu nem mesmo sei se você existe. Para mim, existe. É a tal da pessoa ideal.
Vamos logo juntar nossas coisinhas, deitar e assistir a um filme romântico-dramático-cômico, que é a vida que vivemos. Mas não vamos ficar nervosos, ta bom? Trouxe duas xícaras de café, música ultrapassada e um pedaço de bolo de cenoura, para salvar. 

Os tipos de amor.

Certa vez, fui questionada sobre os tipos de amor e qual era o mais bonito. Fiquei com cara de caneca e não consegui responder nada. Para mim, todos os amores são os mais bonitos, mesmo com suas falhas, paranoias e abandono.
Como dizer que o amor que sinto pela minha mãe é mais bonito que o que sinto pelo o meu pai? Como dizer ou medir o amor que sinto pelo namorado atual e o que senti pelo ex? Complicado. Ninguém quer dar o braço a torcer e dizer que ama mais o namorado passado do que o atual. Todo mundo quer amar tudo a toda hora, inclusive a pessoa que acorda do seu lado e que te da um beijo de boa noite antes de dormir.
Acho que o amor mais bonito é aquele fiel, honesto, sincero, companheiro e não tão sério. Pessoas sérias demais são amargas e ninguém quer isso, também.
Acho bonito o homem que abre a porta do carro para a mulher. O filho que chama a mãe de "senhora" e que a trata como rainha. Acho bonito a mulher que mesmo depois de 20 anos de casamento, ainda se arruma para o marido e faz questão de comemorar o aniversário de namoro, com direito a presentinhos e um jantar atrapalhado, mas feito com carinho.
Acho lindo encontrar um casal de idosos tomando café. Acho divino o homem que sai de uma reunião e liga para a mulher, para perguntar se está tudo bem e dizer que a ama.
Fico maravilhada com a mãe que é melhor amiga dos filhos, mas que sabe impor limites. Acho impressionante o pai que sabe ser delicado e parceiro e não durão e arrogante.
O amor mais bonito é aquele que nos faz bem e que vale a pena. Sem mais.

Homens x Mulheres

Afinal, o que homens e mulheres querem? Essa pergunta já está dando nó na minha cabeça. Antigamente (como se eu fosse idosa) era mais fácil de responder a pergunta. Diríamos: homens querem sexo e mulheres querem amor, companhia, compreensão, lealdade, casa e família. Não sei se essa resposta cabe a pergunta hoje.
Sou do tipo feminista, mas não está dando para defender com unhas e dentes o meu gênero, afinal, mulheres tem se comportando como homens (aquele tipo que não vale muita coisa, porque existem homens e HOMENS). Mulheres não se respeitam mais e não exigem respeito, também.
Parece que homens querem sexo e mulheres querem mais sexo, ainda. Como se tivesse acontecido uma revolta e elas decidiram: chega, agora vou jogar na mesma moeda. Aliás, às vezes tenho a impressão de que os homens estão querendo compreensão, carinho, casa e família e as mulheres estão querendo sexo, bebida e muita farra. Não sou contra nada disso, mas mulheres, vocês tem me envergonhado um pouco.
Ser o sexo forte não é sinônimo de comportamentos fúteis e vergonhosos. Ser do sexo forte é construir uma boa carreira, ter caráter, saber se virar, ser independente, ter postura e tudo mais. Ser do sexo forte é não se submeter às ordens e machismo da sociedade e dos seus maridos. Ser do sexo forte é deixar claro em casa que você lava a louça e ele, também. Você arruma a casa e ele, também. Você não precisa ficar sendo empregada de ninguém, mas ser esposa e companheira.
Mulheres não estão mais esperando o príncipe encantado. GRAÇAS, porque não existe, certo? Se quer algo, vá atrás. Nada melhor que se apaixonar pelo cara errado e transforma-lo no cara certo.
A indústria tem feito do sexo feminino produto de desejo e só. Não escutamos mais notícias de feitos estupendos vindo de mulheres, mas conhecemos todas as mulheres frutas e vegetais.
Homens, o que vocês querem? Vocês querem um trofeu ou um amor? Ora vocês criticam esse comportamento, ora vocês apóiam. A dúvida é tão grande assim? Acho que está na hora de decidirmos, por favor. Antes que as mulheres pães, uvas e coxinhas resolvam procurar homens pastéis e churrascos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Não quero perder tempo





Quando essa coisa estranha começa a chegar, procuro te enviar cartas em branco, mas com muitas coisas escritas e borradas. Quando a angústia começa a querer me vencer, fecho os olhos e viajo em todas as lembranças de dias bons e sorrisos sinceros. Tem horas que canso e quero te mandar embora, mas antes de ir, parece que o seu rosto fica trinta vezes mais bonito e que você acabou de sair de um estado de graça. Acabo desistindo dos gritos, de te mandar embora e de me deprimir com muito sorvete, filmes tristes e músicas suicidas.
Rasgo todas as cartas em branco. Bagunço a cama e coloco duas xícaras de café em cima da mesa para alimentar o nosso vício e essa coisa estranha que chamamos de amor. Penso que foi só uma crise e que mais tarde estaremos conversando sobre a novela e percebendo que poderíamos ser mais intelectuais ou espertos. Você me abraça. Você promete não brigar e aceitamos que só foi uma briga besta, intensa, interna e cansativa. Acho que vamos dormir por algumas horas e no outro dia tudo já estará bem.
Eu não quero mais perder as minhas coisas. Eu não quero mais perder tempo, sabe? Vamos brigar mais um pouco. Vamos chorar mais um pouco. Vamos brindar muito. Vamos transformar qualquer coisa em festa e pronto. Vou levantar e passar o dia escrevendo. Você vai levantar e passar o dia fazendo qualquer coisa.  Vamos arrumar o quarto, por favor. Não aguento essas coisas jogadas no chão e você não aguenta papéis e frases soltas por aí, perdidas e esquecidas. Você quer que eu escreva. Eu quero que você seja feliz.
 Falta quanto tempo agora? Não quero mais perder tempo. Não quero perder fotografias. Não quero mais perder o sono, também. São três horas da madrugada e todas essas coisas me fazem perder tempo. Já considerei tudo que deveria e agora vou dormir. Vê se não demora para desligar as luzes, por favor.

Um pouco bipolar





Que vontade de chorar, essa. Vontade de querer jogar as formalidades e sair gritando feito louca. Talvez seja uma fase de insanidade gratuita (ou não). Chuva costuma me deixar mais feliz. Café, também. Mas hoje sinto-me tão vazia, que por mais que o mundo passe a ser melhor, não sentirei nada. Estou oca. Ao mesmo tempo estou intensamente feliz. Sinto vontade de abraçar estranhos e sorrir para os animais. Sou como um belo fim de tarde, com um pôr do sol perfeito e calmo.
Começo a achar que sou o extremo de cada coisa. Mais um pouco e vou ser todas as pessoas em um corpo só. Sou homem, mulher, mãe, filha, orfã. Sou orfã de coisas pequenas. Não me importo tanto com coisas grandiosas. Deixe comigo um bom livro e algum café que já serei feliz.
O dia está passando muito devagar. Eu procuro correr para ter a impressão de que logo tudo terminará. Continuo sentada em uma cadeira de escritório, fazendo coisas que não são muito empolgantes e pedindo para ir pra casa logo. Preciso sair dessa loucura que é a responsabilidade e uma vida quase adulta.
Poderia pegar minhas coisinhas e viajar por aí. Conhecer novas pessoas. Sentir raiva e fazer amizade com gente diferente de mim. Visitar lugares calmos e outros mais movimentados. Poderia ir à Itália engordar com as massas e me encantar com o romantismo da cidade. Poderia ir à India experimentar uma religião diferente. Viver em um mundo diferente. Mas ainda assim, poderia ficar aqui sentada, esperando as horas passarem e depois voltar para casa e ligar a tv.
Poderia pedir comida japonesa ou fazer um sanduiche qualquer. Poderia ligar para um amigo ou deitar e dormir.
Sou tão instável que chega a dar medo. Em alguns momentos minha rotina e vida são verdadeiras interrogações. Se tivesse toda essa liberdade e coragem, teria conhecido todos os cantos desse planeta. Todos os Deuses. Todas as comidas. Teria gritado, chorado, xingado e morrido.
Se eu tivesse toda essa liberdade... Talvez fosse outra pessoa.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Amor ao café.




Tenho milhões de notas mentais, mas antes que eu esqueça, uma preciso escrever em algum lugar: PRECISO DEIXAR DE TOMAR CAFÉ. Pensem comigo: passei a vida tomando café. Café me deixa alegre, calma, triste, com sono, sem sono e me faz escrever bem. Quando chove, tomo café. Quando estou cansada, tomo café. Quando estou com fome, tomo café. Quando estou sem fome, tomo café. Quando estou irritada, tomo café. Quando estou quase dormindo, tomo café. Quando quero dormir rapidamente, tomo café. Como diabos vou conseguir abrir mão do café agora? Tenho duas opções: aguentar as consequências do café para o meu corpo ou mudar de vida e parar de tomar café. Até parece droga. A repetição da palavra café é proposital.
CAFÉ. CAFÉ. CAFÉ. CAFÉ.
Pensando por esse lado, é assim que nos sentimos em relação ao amor, não é?
Você ama demasiadamente uma pessoa, mas a relação já está desgastada. Parece que o certo é acabar com tudo e cada um ir para o seu canto, mas não é tão simples assim. 
Tem dias que você não quer nem papo, mas se ela não mandar mensagem ou ligar, ao menos para te irritar, já é o suficiente para você se sentir desamado e esquecido. Tem horas que é impossível uma conversa, mas você teima em querer falar com o bendito. Isso não é nem dependência, sabe? É que você tem medo que se deixar pra lá, tudo vai acabar e escapar de você. Afinal, se você está alegre, é por essa pessoa. Se você está triste, é por essa pessoa. Se você está com raiva, é por causa dessa pessoa. Se você está com saudade, é dessa pessoa. Se você está carente, quer essa pessoa. As pessoas são formas de vícios, também.
Para mim, o café é uma pessoa e por mais que me faça mal, não abro mão. Nosso relacionamento ainda vai longe. 



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Conversa com um motorista de ônibus




Resolvi que como escritora deveria experimentar coisas novas, arriscar mais.
Saí de casa umas 5:00 da manhã, peguei o primeiro ônibus que passou e disse ao motorista que queria ir até o fim e ficar na última parada.
- Mas lá é perigoso, Dona.
Primeio que Dona fez com que eu me sentisse com uns 10 anos a mais e eu queria mesmo um pouco de perigo. A minha vida estava monótona demais.
- É lá mesmo que eu quero ficar.
O ônibus estava praticamente vazio, eu estava sentada perto do motorista, então ele decidiu matar um pouco a curiosidade.
- Olha, Dona, você não tem cara de que trabalha pra lá, ou tem algum conhecido que mora lá.
- Você está certo.
- Então por que a senhora que ir para um lugar que tantas pessoas evitam?
- Estou procurando um pouco de adrenalina hoje.
- Não seria mais fácil a senhora saltar de para-quedas?
É verdade, seria mil vezes mais fácil e eu não correria tanto risco de vida.
- É que eu tenho medo de altura.
- E não tem medo de morrer, não?
- Como assim?
- Olha, Dona, eu não gosta de fazer essa rota várias vezes ao dia. Quer dizer, tem algumas pessoas legais, honestas, mas lá é um bairro perigoso. Toda vez que chego perto já vou rezando e pensando como vai ser se resolverem entrar no ônibus, assaltar ou colocar fogo, sabe?
- Então por que o senhor faz isso todos os dias?
- Porque eu tenho mulher e dois filhos para criar. Já tentei muitas vezes mudar minha rota, mas como a senhora já deve ter percebido, não consegui.
Confessor que naquele momento comecei a pensar onde é que eu estava com a cabeça quando decidi levantar de madrugada, me arrumar e ir visitar o bairro mais perigoso da cidade. Se eu estava querendo morrer, era mais fácil eu ter ido saltar de para-queda sem para-queda.
- O senhor nunca procurou outro trabalho?
- Já, mas quem vai querer contratar um homem que mal sabe escrever o próprio nome?
- Como você se tornou motorista de ônibus?
- Olha, Dona, ser motorista de ônibus não é muito difícil. Ora, até mesmo um cara como eu sou. Pra ver, eu só tive que mostrar para eles que dirijo bem, sei compreender todas as placas e tenho coragem o suficiente para fazer essa mesma rota todos os dias. Não estou reclamando, não. Sabe, ser motorista de ônibus não é tão duro, sempre tem algum passageiro que nos trata com humanidade, são divertidos e interessantes. Mas nunca caimos na rotina, sabe?
- Sei... desculpe-me, qual é o seu nome?
- Rogério, Dona.
Eu não estava mais me importando com o Dona, talvez eu tivesse mesmo uns 10 anos a mais.
- Pois é, seu Rogério, acho que foi o cansaço da rotina que me fez acordar tão cedo, entrar aqui e desejar ir para esse lugar. Nessas horas, eu penso " Feliz mesmo é o motorista de ônibus."
- É, Dona, cair na rotina é pra matar, não? Pelo jeito, desculpa se eu tiver errado, mas a senhora tem maior cara de escritora.
- Como você sabe?
- Olha, o mundo tá cheio de vocês. Quase todos os dias entra um aqui. Tem os que fazem questão de parecer que são escritores, se duvidar até deixam alguns cartões com a gente, como se realmente fossemos ler algum de seus livros. Quer dizer, não é por nada não, mas a maioria aqui só quer saber é da novela mesmo e olhe lá. E tem aqueles que são super discretos, mas que sempre dão pinta de escritores ou uma tentativa disso. Depois de um tempo você aprende a identificar cada tipo de pessoa, sabe?. Se torna uma distração.
- E eu sou qual tipo de escritora?
- Do tipo louca.
Rimos juntos. Mas aquela brincadeira me tocou um pouco, fiquei pensando o que realmente ele quis dizer com isso.
- A senhora não me entregou nenhum cartão, em nenhum momento falou sobre a sua profissão e também nem me parece do tipo insegura. Além do mais, ainda teve a coragem de ficar escutando um motorista de ônibus que mal sabe escrever o próprio nome.
- E qual o problema com isso?
- Não é por nada, não. Mas vocês são bastante ligados a um português certo, toda aquela coisa de livro, palavras difíceis. Daí eu tiro a conclusão de porque de tantos escritores que passam por aqui, apenas você parou para conversar comigo.
Por um lado ele tinha razão, mas sabe, eu admiro bastante as pessoas. O Rogério era bastante inteligente, mesmo sem saber escrever direito, a vida já havia lhe ensinado bastante,e isso talvez nenhum livro pode nos oferecer com tanta clareza.
- Bom, Dona, chegamos no último ponto de ônibus. Cuidado, não vá encontrar adrenalina demais.
- Quer saber, conseguir sair da monotonia com essa conversa que tivemos. Aliás, eu tenho que explicar para você um pouco sobre essa coisa louca de ser escritor.
- Quer dizer que a senhora não vai ficar?
- Você ainda aguenta conversar com uma escritora?
- Sempre é bom uma boa companhia, ainda mais de alguém tão... como é que diz? acho que a palavra é intelectual.
- E só por curiosidade. Aonde o senhor mora?
- Ah, Dona, nesse bairro aqui, infelizmente. Mas aí é outra história.
- Então pode ir me contando que o caminho é longo.

Carta a um amor.




Madrugada fria, silenciosa e a minha maldita insônia me fazendo companhia. Escrever uma carta parece ser salvação para a alma.
Hoje o dia foi pau, amor. Quase tive um princípio de loucura. Tudo bem que sou louca, mas hoje quase me transformei em casa de internação. A normalidade é chata demais para mim. Nunca fiz questão de ser normal. Mas às vezes sinto o peso da minha pouca diferença. Ainda vai querer ficar ao meu lado mesmo assim?
Parece que estamos em planos diferentes. Você envia algumas palavras da terra e eu tento me comunicar desse mundo torto que sou eu. Não sei como funciona o serviço de correspondência. Feche os olhos um pouco, talvez entenda todas as palavras na sua mais pura essência.
Agora começou a chover. Fazia um bom tempo que não parava para olhar a chuva, logo eu que gosto tanto dela. Tenho medo de deixar as minhas coisinhas de lado. Tenho medo de deixar você de lado, também. Tenho medo de deixar a vida de lado. Esses dias estão se arrastando. Estão começando a arrancar a minha pele. Ajude-me, por favor.
Queria entender essa loucura que é viver. Queria entender você. Não sei como dizer adeus. Não sei se tenho coragem. Mas parece que é preciso. Estamos nos machucando cada vez mais e tanto amor tem se perdido em meio a brigas e lágrimas. Amo-te a ponto de doer. Tenho medo a ponto de querer te agarrar e não soltar, para que você não vá embora. Sabe quando te abraço bem forte, quase a ponto de te sufocar? Faço isso pelo simples fato de querer te sentir cada vez mais perto. Sabe quando não falo nada e só olho pra você? Faço isso pelo simples fato de querer admirar a sua beleza e de querer me encantar cada vez mais. Sabe quando brigamos e eu acabo demonstrando estupidez? Faço isso porque sinto insegurança, medo e não quero ter que aprender a viver sem você ao meu lado. Tenho tantos defeitos, amor, mas amo-te tanto, também. O que fazer agora?.
Sabe, insistir parece ser uma boa ideia. Mas até que ponto? Até que ponto devemos insistir se só nos machucamos. Quero recuperar o amor, os carinhos, as brincadeiras. Amor, amor, não sei mais nem quais palavras usar. Já te falei todas. Já citei poemas, músicas, besteirinhas. Desculpe-me a minha eloquência, insegurança, medo e a forma quase errada de amar. Diga-me o que fazer, então. Diga-me se devo ou não continuar a amar.

Saudade.





Saudade é pau. Nos deixa atordoados. Nos traz um desespero quase incrontrolável, daqueles que se mata ou quer morrer. É tão urgente quanto a vida. Tão urgente quanto nós mesmos e a nossa pressa de querer tudo a toda hora. Querer tudo do jeito que achamos que é certo. De um jeito que possa nos fazer feliz.
Saudade aperta e vai tirando o ar aos poucos. Tira o ar até daqueles que raramente a sentem. É ilimitada, não diz quando vai acabar. Nos empurra de um penhasco. Ou você aprende a voar, ou dá de cara no chão.
Saudade nos faz sorrir também. Traz a leveza de um sorriso. A alegria de um momento, de uma pessoa, de uma época. Fala-se de saudade do mesmo jeito que fala-se de amor, esperança, tristeza. Há quem diga que saudade é o primeiro sintoma de amor. Pode até ser, mas por que? Talvez porque queremos a presença quase sempre. Porque somos carentes profissionais e precisamos de carinho e um pouco de amor, pra sair dessa rotina de sentimentos que é a vida de hoje. Queremos a perfeição de uma hora. A possível formação de um sentimento. Queremos que o mundo caiba nas nossas mãos pelo menos uma vez na vida. Queremos ser a vida. Simplesmente queremos ser a origem do mundo.
Sentir saudade é digno. Sinto um pouco de pena de quem não a sente. Ou que até sente, mas não da forma normal. Nada mais é normal. Ninguém mais é normal, mas tem mania de querer ser. O diferente atraí do mesmo jeito que nos leva pra longe.
Inventamos um amor porque sentimos falta de amar. Inventamos um amigo imaginário porque sentimos falta de amizade verdadeira. Fantasiamos muitas vidas pra fugir da realidade. No fundo tudo se trata de sentir saudade de quem você foi um dia. A falta de uma pessoa e da felicidade que parecia ter encontrado.
Saudade é fria, quente, agressiva, delicada. Nos arrebata a ponto de ficarmos jogados na cama durante horas ouvindo música. Pensando. Pensando. E nada de o sono vir. E nada das horas passarem. E nada de ela nos deixar em paz. Saudade demais é tortura da mais pura e cruel. Quem já foi vítima de saudade, sabe. O mais engraçado é que apesar de tudo isso, somos viciados em senti-la. É uma das drogas mais comuns e necessárias em uma vida.

" Saudade é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida"- Clarice Lispecor.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Romance(sem fantasias e imaginação beirando a loucura)







Traga-me um copo de bebida. Estou quase desistindo de você e voltando para os meus vícios destrutíveis e hipócritas.
Traga-me um cigarro bom ou vagabundo, tanto faz. Mas não esqueça do esqueiro. Não quero fumar o nada.
De nada já basta o que sinto no momento.
Sente-se ao meu lado e vamos nos olhar por algumas horas. Silêncio. Não temos nada para falar. Você não tem o que falar. Só fica calado e desviando o olhar. Eu que costumava ser assim. Agora tento olhar nos seus olhos e sinto que não quer o mesmo. Insisto. Sou chata pra ..., mesmo.
Não bebo e nem fumo, mas por que pedi para você trazer bebidas e cigarros?
Também não quero viver a minha vida sem você, mas por que estou quase desistindo?
Não aceito que outros destruam o que temos. Não aceito que uma mentira destrua quem você é.
Não aceito que você seja assim... Não posso fazer nada. Aliás, posso reclamar, chorar, te odiar e voltar a te amar com mais intensidade.
Por favor, sente-se aqui e vamos nos matar juntos. Você com alguns copos de bebidas e eu com algumas muitas carteiras de cigarros. Vamos experimentar a destruição de nós mesmos.
Coloque uma música, por favor. Coloque Amy Winehouse. Ela combina com esse cenário quase romântico, quase triste, quase morto.
Vomite logo as coisas em cima de mim. Não as bebidas, mas as verdades... Não minta, por favor. Não há nada pior que uma mentira. Sente-se aqui e fale tudo de uma vez por todas, ora porra.
Comece a chorar, a gritar, a me mandar para ..., mas não fique parado e com a cabeça baixa.
Pague a conta e vamos andar por essas ruas vazias. Começa chover agora. Esqueça se seu cabelo vai ficar bagunçado. Esqueça se sua blusa ficará molhada. Pare de se importar um pouco com essas coisas e tire os sapatos. Pise no asfalto. Permita-se ser um mendigo com fome de carência. Eu me permiti ser um lixo cheio de carne podre. Urubus estão perto de mim. Logo ficarei limpa, e você?
Traga-me uma toalha e roupas limpas. Agora vamos deitar, nos abraçar e dormir por algumas horas. Amanhã tudo isso será passado. Só restarão as roupas molhadas, os pés machucados e a ressaca e falta de ar.
Vamos mandar todos ... e vamos ser felizes, por favor. Você com a verdade sempre em suas mãos (ao menos é o que pensa) e eu com a minha instabilidade e estupidez.
Vamos encarar os fatos: nos amamos e temos que ficar juntos para sempre.

Nós.



Teu corpo pede carinho, eu peço um amor inventado. As horas passam se arrastando e nem sentimos. Queremos o mundo inteiro, inclusive as suas dores. Até as piores.
Tua respiração continua rápida, ofegante e assustada. Fico esperando pacientemente até as estrelas aparecerem para poder ir embora. Que a sorte nos acompanhe até lá.
Tu desejas os meus desejos, os meus devaneios, as minhas mais incríveis insanidades. Eu desejo um pouco da tua alegria, da tua paz, do teu tormento.
Quero aprender contigo e com a tua paciência, com a tua esperança que é tão grande, tão TUA. No fundo eu que estou em perigo, mas tu que esperas salvação.
 Ficamos observando a chuva caindo pela janela. Cada gota é uma vida e a nossa está naquele meio. Sabemos disso. Quem cairá primeiro? Acredito que eu que não sou tão forte como tu imaginas. Eu sou a pessoa distorcida dos teus sonhos. A realidade nunca foi tão diferente.
 Teus olhos voltam a me pedir abrigo, e eu quero viagem espacial. Quero o diferente. Quero novamente o inventado. Vou alimentar a tua vaidade com a minha. Estou prestes a criar um monstro apaixonado, torto e sensível. Vou atrás da alma dele com a esperança de encontrar a minha. A sorte foi lançada, o que vier é lucro.
 Rapidamente o tempo está acabando para nós e eu começo a ir embora com todas as minhas promessas. Nada de carinho ou amor inventado. Nada de devaneios e proteção. Nada do mostro apaixonado e sensível. Saio rapidamente do cenario de nossas vidas. Vou na chuva para limpar a minha alma. Caí primeiro e as tuas lágrimas são as gotas que lavam a minha alma brutalmente. Assim, como uma vingança ensaiada.
 Mortal

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Quase amor.


Dentro de ti há de ter um pouco de mim.
Um pouco de nós.
De todas as palavras e carinhos trocados.
Nunca nos perdemos tanto.
Ouço a tua voz distante, mas tu nunca estiveste tão perto como agora.
Dentro de ti há de ter um pouco dos meus sonhos.
Um pouco dos meus medos.
Um pouco do meu amor.
O meu amor é um pouco hermético, admito.
Mas acredito que tu gostes da minha complexidade.
Eu gosto um pouco da tua complicação.
Nos gostamos de forma ora certa,ora errada. Hermética, complicada.
No fundo tudo se resume a nós.
Se resume a essa paixão impaciente. À amizade que cultivamos.
Ao nosso caso alegre e às vezes distante.
Dentro de mim há de ter um pouco de ti, aliás.

Quem é você ? (eu)


Afinal, quem é você? Quantas vezes vou ter que penetrar seus olhos à procura de algo a mais? Quantas vezes terei de analisar cada suspiro seu para entender o que passa aí? Como vou saber?
Afinal, quem sou eu? Quantas vezes vou ter que me olhar no espelho e penetrar os meus olhos à procura de algo mais real sobre mim? Quantas vezes terei que falar sozinha para me conhecer melhor? Como vou saber quem está falando por mim?
De repente pareço não te conhecer. De repente nem sei quem sou.
Sou você. Você sou eu. Fomos unidos num pacto divino. Fomos lançados para viver.
Viver tem lá sua beleza. Viver é mais bonito do que parece. Há quem diga que quem vive não morre. Vai saber.
Fomos misturados. Somos vinho e água. Alguém procura equilíbrio, também?
Tenho medo de cair. Você tem pressa para voar. Já disse tantas vezes que se voarmos vamos cair. Por essas e outras que não saímos do lugar. Nos consolamos e às vezes brigamos por excesso de felicidade.
Afinal, quem é você que tem o mesmo rosto que o meu e não é minha irmã? Quem é você que habita meu corpo, usa minha voz e anda por mim? Quem é você que tem a sensibilidade à flor da pele e ao mesmo tempo parece não se importar?
SOU EU.  Clarice. Um tanto adoentada e feliz.

Trecho de carta para um alguém que mora em mim


Pra ti, meu coração quebrado e vivo, recém machucado por causa de tantos sentimentos em um espaço limitado e frágil. Não sei quem és. Não sei como consegues me atingir de tal forma. Só sei que assim, só assim, percebi que devo me comunicar comigo. Devo conhecer os meus outros eus.
Domingo triste, horas se arrastando, calor dos infernos. Luz apagada, uma música barata e a tela do computador começando a maltratar minha visão. Meus olhos, esses que já foram tão jovens, andam com dificuldades para enxergar determinadas coisas. Mal consigo ler as palavras que escrevo e que socam as folhas arrancadas de um caderno velho. A cada dia envelheço mais. Por fora não há muitas mudanças. Em momentos de paixão extrema, volto a ser um bebê que depende da mãe, mas que não a tem por perto e não entende o motivo de tal ausência. Não vamos explicar, também. Toda criança merece uma infância saudável, antes de se chocar com a realidade da vida.
Pra ti, todas as minhas feridas abertas e sangrando. Todo o meu amor gritando. Todas as coisas boas e ruins que andam me acompanhando durante a vida. Desculpe-me a falta de formalidade. Ora deixo as frases em ordem, ora esqueço tudo que aprendi (ou deveria ter aprendido) na escola, lugar selvagem onde as crianças se criam mais do que em casa.
Não consigo imaginar com o que pareces. És monstro? És lindo? És o que, afinal? Sou eu, apenas. Estou me olhando no espelhando e te enxergo com tanta intimidade que chega a dar medo. Uma pausa, por favor. Parece que o café está pronto.
Voltei. Café forte, princípio de chuva lá fora, uma tempestade aqui dentro. Nada mais espantoso do que um furacão dentro de si. Tento ser calma, mas o momento pede correria. ADRENALINA!
Sinto vontade de vomitar tudo em cima de ti e te culpar por todos os erros que já cometi. Típico de gente covarde. Afinal, você habita em mim e é covarde, não é? Consegui a resposta que queria, mas não vou contá-la. Já que és tão esperto (ou esperta), descubra tudo sozinho (ou sozinha) ? PONTO.
Tenho medo de fazer terapia e perder a inspiração. Não quero perder a minha insanidade. Me assusta ser uma pessoa convencional, que se preocupa com futebol e queima os neurônios com programas de tevê sensacionalistas e fúteis. Gosto dessa coisa paradoxal que é ler, escrever, sorrir e chorar baixinho. Gosto, mais ainda, de todos os devaneios que rodam a minha cabeça por horas e mais horas, expulsando o meu sono e tirando a minha paciência. Vou agarrar alguns travesseiros e viajar na minha mente. Vou fechar os olhos e sentir outros corpos. Rápido, tragam-me medicamentos e me encaminhem a um psiquiatra. Melhor, ignorem... Nada mais fácil que ignorar um louco poeta.
Às vezes acho que guardo boa parte do meu amor por ti no estômago, pois quando sinto saudades, desejo comer a presença e quando brigamos, só falto morrer de gastrite. Como uma gorda que se preze, prefiro passar o resto da vida comendo a tua presença a ter que morrer de gastrite por ter que deixar de amar você. Quase trágico.