segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O amor e seus sintomas.


Olha, eu não sou de ficar puxando assunto com ninguém, mas gostaria de saber como anda sua vida. Seus olhos estão meio inchados, gostaria de saber se andou chorando e o motivo, sabe? Não que eu vá conseguir te ajudar. Não que eu vá resolver seus problemas, só que às vezes é bom falar. Às vezes é bom perder a postura de feliz e admitir que nem tudo está bem.
Não vou te analisar, até porque ainda nem aprendi a fazer isso direito. Só quero mesmo saber se esse olhar vazio é de tristeza ou de pura distração. Você nem se quer tomou o refrigerante. Nesse tempo que estamos aqui, o gelo já derreteu e o gosto deve ta péssimo. Voltando ao assunto, eu não sou de me meter na vida de ninguém e muito menos faço do tipo que diz que entende, só que não ta entendendo nada. Se eu entender, vou falar. Se eu não entender, vou pedir desculpas e perceber que teria sido melhor não ter tocando no assunto.
Também não gosto de tocar em assuntos. Prefiro que eles venham até mim, mas nesse caso, preciso cutucar porque essa sua mania de ficar rodando o celular na mesa já está irritando e é um forte indício de que quer falar, mas não sabe como.
Já estamos aqui há quase duas horas e as únicas coisas que você falou foram sobre livros e filmes, será que vou ter que entrar num jogo de decifrar o que você quer dizer desse jeito mascarado? Vou, né? Então, deixa eu pensar um pouco: Você comentou que leu a antologia completa de Vinicius de Moraes, escutou quase todas as músicas famosas dele em parceria com Tom Jobim, ficou cantarolando Preciso dizer que te amo e justificou ter escutado na rádio e que tirou o sábado para assistir P.S Eu te amo, O amor não tira férias e Simplesmente amor.
- Agora entendi. O nome disso é amor.
- É...
- Melhor não tocar no assunto, mesmo, né?
- Sim. Peça a conta e vamos embora. Isso tá começando a me dar alergia.
- Por que?
- Porque não to pronto.
- Pronto pra que?
- Pra isso. Pra esse negócio de amor e seus afins.
- E agora?
- Agora nada. Vamos pagar a conta e fingir que nada disso aconteceu. Você não viu, não ouviu e não descobriu nada. Para todos os efeitos, estou com os olhos inchados de cansaço e olhar vazio por distração.
- Tudo bem, mas esse amor?
- Uma hora ele desiste e vai embora, ou uma hora eu desisto e vou atrás dele.
- Você vai desistir de que?
- De evitar esse negócio de amar. Agora já ta bom, antes que você me faça falar.
- Por esse jogo de resistência, se você sabe que quase sempre quem ganha é o sentimento?
- Você não entende, né?
- Não!
- Então melhor todo mundo esquecer o assunto e ficar por isso, mesmo. Quando você começar a entender, a gente cutuca esse assunto de novo.
- Ta bom, mas quando será que vou começar a entender?
- Quando você chegar até mim e falar que trocou os livros da Clarice pelos de Vínicius e quando ficar com esse rosto apreensivo, que todo apaixonado tem. Quando você trocar os filmes de suspenses por comédias românticas e começar a analisar cada música que está escutando. Quando você começar a achar romântico um passeio na praia no final de tarde, assistir a um filme no meio da semana e andar sempre arrumada, mesmo quando bater aquela preguiça.
- Melhor a gente parar por aqui, mesmo.
- Pois é. Parece que vai chover, né? Melhor a gente correr.
- Vamos, então.

4 comentários:

  1. Trocar os livros de Clarice pelos de Vinicius ou quem sabe começar apreciar a leitura de Drummond...hum, acho melhor ficar aqui mais um pouco.

    Parabéns Alessandra, pela crônica.

    Boa sorte, paz e luz.

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  2. Adorei sua crônica muito bem escrita parabéns, estou seguindo pode retribuir?

    http://snestalgia.blogspot.com.br/

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  3. Parabéns Alessandra, você escreve muito, já li quase todos os seus textos e gosto muito.Parabéns!

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