sábado, 5 de dezembro de 2015

(Des)encontro com a lucidez



De repente, ao abrir os olhos rapidamente e enxergar tudo ainda embaçado, como em processo de criação, começo a sentir uma clareza enorme, que me anula, me faz regredir e sentir, mais uma vez, aquele estado de ainda não-pessoa, ao estar no ventre, ainda no calor daquele lugar pequeno, tão forte e tão primitivo como é a vida.
É uma lucidez? um devaneio daqueles típicos matemáticos, onde apesar de construirmos cálculos perfeitos e enormes, o que conta mesmo é o resultado simples e objetivo? Como ser objetivo? Como ser tão óbvio? entre um piscada e outra, entre um cerrar de olhos e outro, continuo sendo.
Sinto cada parte do corpo pulsar e nem sei. Eu sou e isso vai além desse conjunto de matérias magníficas que compõe o meu corpo, palpável, sensível e frágil.
Parece que assim, em um estado de não tempo e zero hora, consigo ver claramente o vazio. Não entendo e nem precisa ser entendido. Ver o vazio é ver a si mesmo através de um infinito misterioso, e eu não me alcanço. Minha lucidez repentina pode ir desse estado de graça até o inferno humano, mas quem a guiará?
Olhar o vazio é enxergar, também, a clareza da realidade. Enxergar, em arestas tão sutis, os riscos de ir além da matéria, antimatéria, da irrealidade que criamos e nos acomodamos quase que pra sempre.
Pois bem, o que posso entender, diante desses momentos de suspensão de consciência e aproximação do que há de místico, é que consisto, insisto, sinto, grito, mas enfim, existo.  

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